Navegar é preciso, viver não é preciso!

OPINIÃO - Saulo Marcos de Almeida

Data 12/01/2021
Horário 04:30

Os bosques são belos, escuros e profundos; mas eu tenho promessas a cumprir e milhas a percorrer, antes de dormir. 
Robert Frost

Guimarães Rosa em “Grande Sertão: Veredas” disse assim sobre a vida: O real não está no início nem no fim, ele se mostra pra gente é no meio da travessia. 
A metáfora bíblica equivalente à travessia pode ser caminho. Termo muitas vezes encontrado nos evangelhos (Os discípulos no caminho de Emaús – Lucas 24.13-35) e tão explícito no movimento do povo de Israel no deserto, particularmente, nas agruras do exílio. 
Fazer a peregrinação/caminhada, mesmo que com tanta imprecisão a respeito da vida, é preciso! Registra-se, primeiramente, que na travessia/caminho da vida não se deve acreditar que já chegou a algum lugar. Somente os loucos, tantas vezes distantes da realidade, acreditam ter encontrado um porto seguro nesta existência.   
Num segundo momento, a travessia feita em meio às contradições constantes que marcam a realidade humana reserva apenas alguns momentos de felicidade. A alegria integral no decorrer da vida nunca é possível! Ninguém está isento das intempéries que marcam a caminhada humana, mesmo os cristãos. Ao percorrer os olhos pela Bíblia, percebe-se que os fiéis do passado, a despeito da fé que possuíam, padeceram todo tipo de necessidade, sofrimento e dor... No mundo tereis aflições, dizia Cristo. 
Mas, a despeito das dificuldades listadas, ao realizar a travessia da existência, oportunizamos o encontro conosco, com o próximo e com Deus. 
Encontrar-me comigo requer coragem, pois é preciso “mudar aquilo que interiormente não se aceita” (Jung), como passível de mudança. 
E, como se encontrar com o próximo, se tantas vezes ele se apresenta como o inferno indesejado da minha vida, como sugeriu Sartre em seu existencialismo? Colocando-se no lugar do outro em sua singularidade e subjetividade (alteridade): ame ao próximo como a si mesmo – Mateus 22.39. 
Lembre-se que Jesus, na travessia para Emaús após a ressurreição, caminha com seus discípulos até a ponto de partir o pão da comunhão (celebração da vida e da esperança), momento em que seus olhos são abertos. Isso deve ser significativo em nossos dias. Encontro com Deus que depende da Sua graça infinita na vida humana. Ele está sempre à procura chamando pelo nome e espera a participação efetiva do homem e da mulher na construção do Reino de Deus.
É preciso viver, sobretudo, em meio à pandemia, a travessia de cada dia... Antes de dormir, sim, antes de dormir. Feliz 2021!
 

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