No silêncio da noite

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 24/05/2026
Horário 05:00

Há pessoas que acreditam que a noite é apenas a interrupção do dia. Um intervalo escuro entre duas tarefas, uma pausa biológica antes do próximo relógio despertar. Talvez porque sejamos, afinal, criaturas moldadas pelo sol, cumprindo os ciclos cicardianos do nosso relógio biológico. Aprendemos desde cedo a confiar na claridade: trabalhar quando amanhece, atravessar ruas iluminadas, desconfiar do que não se revela imediatamente aos olhos.
Mas existe outra geografia do mundo que só começa quando as janelas se apagam. A cidade muda de respiração depois da meia-noite. O vento parece caminhar mais devagar entre os fios elétricos. Os cachorros latem para presenças invisíveis. Um ônibus vazio cruza a avenida como se transportasse apenas memórias. E há também aqueles que permanecem acordados — não por insônia, mas por fidelidade a uma espécie rara de escuta.
O silêncio da noite nunca me pareceu vazio. Ao contrário. Há nele uma espera. Como se as palavras, livres do excesso de vozes do dia, finalmente encontrassem espaço para amadurecer. Algumas frases precisam da lentidão da madrugada para ganhar corpo. Durante o dia, elas seriam apenas opinião. À noite, tornam-se pergunta.
Às vezes caminho pela cidade tarde da noite sem destino muito claro. Um cigano errante entre esquinas vazias. Recolho fragmentos dispersos: o garçom empilhando cadeiras, o estudante voltando cansado, o casal discutindo baixo dentro do carro estacionado, a mulher que espera o último ônibus olhando o céu como quem consulta um oráculo silencioso. São cenas mínimas, quase invisíveis. Mas nelas existe uma espécie de verdade que raramente aparece nos discursos grandiosos.
Foi na observação dessas cenas noturnas que aprendi que não se escreve apenas sobre aquilo que se conhece. Escreve-se também sobre aquilo que assombra. As perguntas mais importantes não nascem da certeza, mas do espanto. Talvez seja essa a função secreta da noite: devolver ao mundo seu mistério perdido.
Sempre achei que existisse algo de coruja nos escritores. Talvez também de morcego. Não pela escuridão em si, mas pela capacidade de orientar-se onde quase ninguém vê. Enquanto o mundo dorme, eles recolhem ruídos mínimos: o ranger de um portão, uma conversa atravessando a calçada, o homem que fuma sozinho diante da padaria fechada. Alimentam-se dessas pequenas sombras como quem procura vestígios de sentido espalhados pela madrugada. Enquanto houver alguém escrevendo devagar numa madrugada qualquer, o mundo ainda não terá desistido completamente de sonhar.

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