Nos tempos da Princesa da Sorocabana

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 19/03/2023
Horário 04:30

No último sábado fui visitar a feira agroecológica realizada em frente ao Projeto Cultural “Galpão da Lua”, instalado nas dependências de um armazém antigo ao lado da Estação Ferroviária de Presidente Prudente (vale a pena conhecer). Eu ainda não tinha visto a completa demolição da casa do Chefe da Estação, construído em 1920 pelo Coronel Manoel Goulart. Não consigo entender porque a nossa cidade despreza completamente a sua história....
Fiquei ali parado por alguns instantes, atravessei a rua e caminhei até a antiga plataforma da estação, sempre tão familiar.... E viajei para o tempo que ainda era jovem. Era o começo dos anos de 1990. Eu já trabalhava na Unesp (Universidade Estadual Paulista), mas ainda assistia aulas de pós-graduação na cidade universitária da USP (Universidade de São Paulo). Apesar da viagem de trem gastar três vezes mais tempo do que pela rodovia (isso mesmo, eram 18 horas de viagem!), eu preferia me deslocar semanalmente de trem para São Paulo. Como era divertido....
O relógio da Estação marcava 18h30. O maquinista acoplava mais três vagões ao comboio proveniente de Presidente Epitácio para seguir viagem. O primeiro deles era o carro de primeira-classe, com belas poltronas reclináveis de couro. Em seguida era a vez do carro restaurante. E depois, o carro dormitório, com direito a banheiro privativo. Todos eles daquela série “Budd 800” fabricada em aço inoxidável pela Mafersa na década de 1960 (“chique no úrtimo”!). 
Era o tempo de nos acomodar cada um no seu lugar e lá fora ouvia-se o apito do Chefe da Estação, anunciando o comando da partida. Lá ia eu com destino final a Estação Júlio Prestes, localizada no centro nervoso da cidade de São Paulo. Eu gostava de observar pela janela os armazéns de Regente Feijó, o estacionamento de locomotivas em Indiana, os maquinários de tração e de tráfego em Assis, a estação de Palmital, as oficinas e depósitos de Avaré... E daí já vinha a fome. Era preciso ocupar alguma mesa no carro restaurante antes que resolvessem fechar a cozinha. Havia uma comida trivial e boa cerveja, seguido de uma boa noite de sono no dormitório privativo. Lá ficava eu na completa escuridão da noite. Ouvia todos os sons que corriam juntos, combinados, que se fundiam ou se sucediam. Sons da cidade e de fora da cidade. Sons da noite que se esvaía. 
De volta ao sítio histórico da nossa cidade, lembrei da forma carinhosa que os ferroviários a batizaram: a “Princesinha da Sorocabana”. Pensar de que forma guardamos (ou jogamos fora) a nossa memória coletiva pode nos contar muita coisa a respeito das tendências e da evolução da sociedade. 
 

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