Notícias também são vítimas na pandemia

Roberto Mancuzo

COLUNA - Roberto Mancuzo

Data 16/03/2021
Horário 09:45

Uma das maiores vítimas nesta pandemia é a verdade. E verdade é a base de um conceito do jornalismo que muitas pessoas usam de forma errada: a notícia. 
As notícias são as matérias-primas de todo processo jornalístico, mas elas não nascem prontas. 
Antes das notícias existem os fatos e aí que muita gente confunde e erra feio. Fatos ocorrem a todo instante. Você ler esta crônica é um fato, mas não é, definitivamente, uma notícia. Você não verá por aí uma manchete: “Fulano leu a crônica do Mancuzo no jornal O Imparcial”.
Para que um fato seja uma notícia, é preciso, primeiro, que ele tenha algumas características que o aproximem do interesse público, como ser uma novidade, algo inédito, ter importância econômica, cultural ou social, ser improvável, ter como protagonistas pessoas importantes na sociedade ou até mesmo ser algo que leve à reflexão, transformação ou indignação das pessoas. 
Em segundo lugar, para que um fato seja uma notícia, é preciso que ele seja trabalhado por um profissional da notícia: o jornalista. Esta atividade profissional tem nos quatros anos de graduação todo um conjunto de saberes para que um fato seja observado, analisado, pesquisado, documentado e por fim, reportado ao público com responsabilidade. Em meio a tudo isso, cabe ainda ao jornalista observar com rigor, enquanto produz a notícia, elementos como veracidade dos dados e equilíbrio entre as posições conflitantes que possam compor a história. Quando tudo isso é bem-feito, dentro dos padrões éticos do Jornalismo, a notícia reveste-se do seu maior valor: a credibilidade.
Está gostando da aula? Poderia escrever muito, mas muito mais sobre o que é uma notícia, mas já deve ter dado para sacar que não é qualquer pessoa que pode tratar de uma notícia e que este conceito não se resume apenas a “contar alguma coisa” para alguém. 
É mais embaixo e aí que está o ponto. O jornalismo profissional tem feito um trabalho incansável em levar a toda população as notícias mais importantes e úteis durante a pandemia. Muitos veículos criaram equipes especiais e cerca de 80% das redações hoje giram em torno deste assunto histórico. Erram, como era de se esperar também, mas acertam muito mais e se me perguntarem como faço para não sucumbir ao excesso de informação digo que defino um ou dois veículos jornalísticos que confio e por ali fico por dentro dos casos mais importantes.
Na contramão desta condição profissional e conceitual está o uso do termo “notícia” por pessoas despreparadas, quando não mal-intencionadas e maldosas. Do ano passado para cá, foi muito grande o esforço de autoridades governamentais e médicas para ter que desmentir informações que foram criadas, inventadas ou simplesmente repassadas em redes sociais como Facebook e WhatsApp. 
A questão é que criar uma mentira e travesti-la de “notícia” dá a ela um grau maior de credibilidade. Por isso que você regularmente recebe fake news “fantasiada” em páginas ou banners com título, linha-fina, texto que se assemelha ao texto jornalístico tradicional, foto e legenda, declarações textuais entre aspas e, principalmente, o uso de uma fonte, que em tese seria a responsável por respaldar o conteúdo enganoso.  
Fico bem impressionado como muitas pessoas inteligentes aceitam uma mentira qualquer só porque há ali uma “fonte”. Parece que o fato de haver uma palavra que indique esta condição o libera de colocar o fato em dúvida. Tenho vergonha alheia quando ouço frases do tipo: “É verdade isso, quem falou foi um médico muito importante, que trabalha lá dentro do hospital” ou “São pessoas renomadas que fizeram um estudo. Não sou eu que estou dizendo. São eles”. Mas eles quem? Que estudo é esse? Feito onde? Quando? Com quem? E que médico é esse? Ele tem nome? É pessoa da ciência? Tem respeito na área? Trabalha diretamente com Covid ou é um profissional que está bem longe desta trincheira?
E nessa onda, as mentiras se espalham e são perigosas sim. Repito o que já disse mil vezes: fake news podem levar pessoas a tomarem decisões erradas e até morrerem por isso. E o fato de você “só ter repassado” não tira sua cumplicidade. Você ajudou sim. Se alguém tomou um remédio e teve reações adversas ou se um amigo foi contaminado porque você a convenceu disso, vai limpar sua consciência de que forma? 

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