Novo olhar

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 01/03/2026
Horário 05:00

A sede administrativa da Unesp em São Paulo mudou de endereço. Saímos de frente da Biblioteca Municipal Mário de Andrade e agora estamos na Praça da República. Com a mudança ando me sentindo estranho, como se houvesse ali outra cidade porque percebida sob um ponto de vista diferente. 
No coração de São Paulo, a Praça da República pulsa como um nó de nervos expostos. Sob seus ladrilhos, linhas de metrô se cruzam em silêncio elétrico; acima, cabos invisíveis transportam dados na velocidade da luz. A cidade parece confirmar a lição de Milton Santos: o espaço é um sistema de objetos técnicos e ações. Automóveis comprimem o tempo em buzinas, motocicletas riscam frestas no ar denso, helicópteros sobrevoam como se a pressa tivesse asas. No chão, transeuntes caminham guiados por mapas digitais, dissolvendo a surpresa do encontro na precisão algorítmica. O meio técnico-Cientifico se impõe: cada gesto mediado por telas, cada deslocamento calculado por satélites. 
Mas no mesmo lugar convivem tempos que não se deixam capturar. Há o vendedor que organiza seus livros usados sobre a lona, o artista de rua que espera a moeda cair, o idoso que mede o passo com a memória. É a cidade escrita como se fosse um pergaminho. No pátio da escola próxima, crianças desenham com giz um mundo que não cabe nos algoritmos. 
Pulam amarelinha como se o tempo fosse elástico e infinito. Ali não há helicópteros nem planilhas — há risos que ecoam contra os muros. Ao lado, numa ocupação daqueles edifícios históricos, refugiados haitianos partilham o almoço e as lembranças de um mar distante. O que os registros chamam de irregularidade é, para eles, casa possível. O território vira abrigo; o abrigo vira esperança. Na mesa do café junto à livraria, alguém abre um romance e suspende o ruído do trânsito. O cheiro do café mistura-se ao papel recém-impresso. O tempo desacelera. Entre uma página e outra, a cidade deixa de ser fluxo e torna-se presença. É nesse instante que o espaço organizado se transforma em lugar vivido.
Pois é... Toda cidade é feita desse duplo movimento: pressa que sobrevoa e leitura que demora. A técnica estrutura o território, mas são as existências que o humanizam. Entre o mundo organizado e o mundo vivido, a praça permanece — palco de circuitos e de histórias. Talvez a tarefa seja esta: lembrar que sob cada sistema pulsa uma vida, e que nenhum mapa substitui o gesto de caminhar. Que a nova sede da universidade seja um espaço aberto para dialogar com esta complexa cidade que nos convida a aguçar mais o olhar. 
 

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