O ano de 1965

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 23/08/2020
Horário 08:07

Acordei nessa manhã chuvosa de domingo com a música dos Beatles, “Nowhere Man” na cabeça. Ela faz parte do sexto disco, “Rubber Soul”, que os Beatles lançaram em 1965. É o álbum que mais gosto desses gênios da música. “Rubber Soul” foi o disco que colocou os Beatles em outro patamar musical. “Nowhere Man” (homem de lugar nenhum) nasceu de um sentimento de isolamento que John Lenon estava sentindo depois da loucura da Beatlemania. Se sentiu um homem de lugar nenhum e escreveu essa letra: “Ele é o homem de lugar nenhum/ sentado em sua terra de lugar nenhum/ fazendo todos os seus planos de lugar nenhum/ para ninguém... 
Lembrei do meu primo Celso Ivan, o Cevan, médico cardiologista em São Paulo. Ele que me mostrou esse belo disco pela primeira vez. Mulher Maravilha acorda com os Beatles cantando essa música. Que belo despertar ouvindo Beatles. O mundo fica mais puro, mais inocente. O que seria do mundo sem a música dos Beatles? Começamos a cantar juntos e as lembranças trouxeram a saudade. 
Em 1965, tinha apenas 12 anos. Mulher Maravilha tinha 4 anos. Cinquenta e cinco anos depois, estamos cantando o “homem de lugar nenhum” com a chuva refrescando a nossa aldeia sagrada. O ano de 1965, segundo o calendário gregoriano, começou numa sexta-feira. Foi um ano de transição. A Revolução Cultural que teria o seu auge em 1968 começa a dar os seus primeiros passos de mudança, na música, no cinema e nos costumes em 1965. 
Coloco no YouTube, “In My Live” e sinto todo o lirismo. A música “Michelle” me leva para a vida intelectual da Rive Gauche parisiense e imagino que estou entre os estudantes de arte, a boemia com suas boinas, barbas e cigarros Gitanes. Sob efeitos da maconha, John e Paul compõem outra linda canção desse revolucionário disco chamada “The Word”. A música dos Beatles não deixa nenhum coração envelhecer. Basta somente ouvi-la que sua juventude estará de volta. “Diga a palavra e você será livre/ diga a palavra e seja como eu/ você ouviu a palavra, é amor?
Para não perder o embalo, coloco "If I Needed Someone” com seus versos românticos que dedico a Mulher Maravilha. Nesse momento, me sinto na brincadeira dançante da Apea escutando os Sombras de Pelé, Antony, Bayarde, Júlio Júnior, Ernane e Benga. Cantem comigo: “Olha a menina/ veja como é lindo/ o céu cheio de estrelas/ nesse mar sorrindo... Começo a dançar com a Mulher Maravilha no quarto, a música “Fortíssimo”, com Rita Pavone. Dancem até o fim do amor. 
Em 1965, a juventude continuava inquieta, não aceitando mais viver conforme os padrões morais das gerações anteriores. A pílula anticoncepcional já tinha promovido uma revolução nos hábitos sexuais da sociedade ocidental. Os EUA começam a mandar as primeiras tropas para a guerra do Vietnã; Nara Leão cantava com Zé Keti o samba “Opinião”; Maria Bethania com a música “Carcará” de João do Vale começa a aparecer como uma estrela para a música brasileira; Malcolm X é assassinado; os biquínis voltam à praia depois de serem proibidos por Janio Quadros em 1960.
Os Rolling Stones lança “I Cant’t Get No” (Satisfaction) da dupla Mick Jagger e Keith Ricchards. Conseguem pela primeira vez atingir o primeiro lugar nas paradas norte-americanas. Na Inglaterra, a música só era tocada em uma rádio pirata, porque a letra era considerada muito sexual. A Jovem Guarda de Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa iam atraindo cada vez mais telespectadores nas jovens tardes de domingo na TV Record. O samba “Trem das Onze”, do poeta do cotidiano de São Paulo, Adoniran Barbosa, levava todos a Jaçanã. Acontece em São Paulo o Primeiro Festival de Música Popular Brasileira, considerado a origem da MPB. Ali foram lançados novos compositores e cantores, como Jair Rodrigues, Chico Buarque, Vandré, Caetano Veloso, Os Mutantes, Gilberto Gil, Tony Tornado e Wilson Simonal. Elis Regina venceu a primeira edição com a composição “Arrastão” de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. 
Esse ano de 1965 foi brabo mesmo. Eric Clapton começa sua carreira solo deixando o grupo Yarbirds. O Oscar foi para o filme musical “A Noviça Rebelde”, com Julie Andrews. A KuKluxKlan, com seus 100 anos de estupidez, matou a ativista pelos direitos humanos, Viola Liuzo, mãe de cinco filhos. Martin Luther King liderou uma marcha com mais de 100 mil pessoas contra o racismo. Nos meus 12 anos, a vida para mim era um algodão doce que derretia na minha boca. Como poderia sentir a rebeldia que o mundo vivia? O tempo serve para acalmar as tempestades que existe em cada um de nós. Já são quase 11 horas da noite. A chuva continua caindo lá fora. Tantas canções felizes estão esperando para serem cantadas. Vamos cantar “Whats Goes On” dos Beatles: 
What goes on in your heart?
What goes on in your mind?...
 

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