O Avô, o Neto e a Locomotiva

Benjamin Resende

COLUNA - Benjamin Resende

Data 12/12/2020
Horário 05:30
Presidente Prudente  separada pelos trilhos da  Estrada de Ferro Sorocabana
Presidente Prudente separada pelos trilhos da Estrada de Ferro Sorocabana

Nesse início de ano, na estação ferroviária, na longa plataforma, apenas havia um homem e uma criança. Nos trilhos de ferro, uma locomotiva em funcionamento cobria a solidão do pátio. O avô se aproximou, mais perto, do trem de ferro e perguntou: “Vai manobrar a máquina?”

O maquinista não deu resposta. De novo, insistiu o velho senhor: “Se puser a máquina em movimento, me avise. Quero que meu neto conheça o trem, indo e vindo, passando de um trilho para outro e soltando fumaça. É ! Meu neto precisa ver de perto a locomotiva se movimentando”.

Nada de resposta. Indagou o avô novamente: “A que horas o senhor vai colocar o trem a deslizar pelos trilhos?”

O ferroviário, já desabituado de alguém lhe dirigir a palavra, respondeu: “Não sei”.

O avô, com toda calma que o neto merecia, para ver a máquina emitir os sons onomatopéicos do seu tempo de criança, “café-com-pão, manteiga-não”, disse ao maquinista.

“Eu espero. Meu neto há de vê-la comendo as duas paralelas de ferro com dormentes atravessados...”.

O homem da máquina, irritado, soltou um xingo surdo, que o avô entendeu perfeitamente: “Não encha o saco”.

De repente, a estação ficou mais solitária. Abandono e desolação se abateram sobre a plataforma. Os trilhos enferrujados e os armazéns em ruína desolavam a paisagem. Era a sensação do velho senhor de estar ali. Viera com a esperança dos ricos e agitados tempos da E.F.S (Estrada de Ferro Sorocabana). Lá estava, nostálgico embora, para mostrar ao neto a beleza ímpar de uma locomotiva pesada rolar pelos trilhos impávida e nobre, orgulhosa dos benefícios que prestara, décadas e décadas, aos prudentinos de ontem.

O homem, avô hoje e criança ontem, não acreditava no que estava vendo. O sistema ferroviário inteiramente sucateado, deteriorado, endividado e nocauteado. A plataforma comprida, antes abarrotada de malas e apinhada de gente, estava deserta. Nenhuma alma viva. Nos trilhos, perto dos barracões, uma máquina, ronronando, respirava o mau humor do ferroviário. O avô retira os óculos e, desoladamente cego, retorna ao passado, que se bobina a sua frente: o agente da estação badala o sino da partida. O chefe do trem, com Presidente Prudente separada pelos trilhos da E.F.S. 60 o apito na boca, dá o assobio da partida. O maquinista, ao imitar o apito, aciona o ipiii...uiii...uiii... e a partida acelera o adeus. As rodas se movimentam e um colosso de r-r-rr-r movimentam a engrenagem e o trem parte. Gente de dentro dos vagões acena com os olhos da saudade. Gente, na plataforma, envia beijos de despedida. O seu tempo de

criança e de moço ali estava gravado.

O neto, sentindo a ausência do avô, o puxa pelo braço, acordando-o de uma letargia “café-com-pão-café-com-pão...” “Vamos embora, vô. O trem não roda”.

O velho concorda: “não roda, as rodas estão enferrujadas...”.

E solitários, a passos desconsolados, atravessam a grade do portão de ferro e descem as escadas quebradas e carcomidas pelo tempo.

Nem tinham entrado no automóvel, a locomotiva se pôs a rugir. O avô tem, nos olhos, o desdém do maquinista. Descortina-se, em sua mente, a máquina a vapor, rangendo, ferreando e apitando. Dúvida cruel envolve-lhe a alma. Volta ou não à plataforma. Pergunta-se: “Vale a pena mostrar ao neto a ferrovia? A incompetência administrativa de corrupções políticas?”

Nada disso vem ao acaso. O neto tem de ver, sentir e ouvir, mesmo de longe, a grandeza da estrada de ferro. O gigantismo das locomotivas arrastando vagões lotados de mercadorias, para abastecer as populações e criando riquezas.

O neto decifra a intenção do avô e o desconcerta ainda mais: “São esses os trilhos que querem tirar para fabricar uma avenida de automóveis?” O velho e bairrista morador da Vila Marcondes, defensor da separação da cidade pelos trilhos da antiga Sorocabana, a custo, contém algumas gotas salgadas dos olhos marejados de lágrimas.

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