Parece uma história de Arsene Lupin, Sherlock Holmes, X-9 ou Ellery Queen.
A campainha soou. Antes de abrir, fui até o terraço para ver quem era (recomendação do amigo com quem divido o aluguel do apartamento, que sigo à risca dado o número de assaltos em São Paulo). Como o apartamento é de frente e no segundo andar, vi que era um moto-boy que viera entregar um embrulho. Estranhei, porque não havia pedido nada de loja alguma por meio desses sites de vendas pela internet, mas como o nome do destinatário era o do meu amigo, o endereço era o nosso e não tinha que pagar nada, desci e abri a porta. Assinei o recibo, recebi o pacote e subi. Coloquei-o sobre a mesa e saí para trabalhar. Meu colega de apartamento já havia saído bem antes.
Quando voltei, à tardezinha, encontrei-o com uma expressão curiosa.
- Olha o que tinha na caixa que você recebeu. – Disse entregando-me a dita cuja.
Dentro havia uma ossada que não tinha cor de ossos. Era uma ossada humana, completa, metálica, reluzente.
- Alguma brincadeira?
- Não sei. Ou, pode ser...
- Tinha alguma coisa junto dela? Um bilhete?
- Um papel dobrado que não cheguei a ver.
- Pois vamos ver, uai!
Peguei o papel e vi que era de um crematório. Então eram ossos mesmo, de uma pessoa! Mas, de quem? Prestei atenção no resto do documento. Era destinado ao nosso prédio mesmo.
- Ah, veja o nome do destinatário, Júlio – disse ao meu amigo.
- Júlio S. Camberra, que não sou eu! – Exclamou ele – É o Júlio do 245...
Fomos ao 245 e batemos. Júlio Camberra nos atendeu à porta.
- Esta encomenda é para você. Entregaram pra gente por engano.
- Ah, o que é?
- Uma ossada.
- Ah, do meu tio. Eu pedi que a cremassem...
- Abra, Júlio – eu disse, curioso querendo saber o que era aquilo – Não são cinzas...
Ele abriu e quase caiu de costas diante daqueles ossos reluzentes.
- É alguma brincadeira?
- Não. Um moto-boy veio trazê-la. Eu recebi, porque o endereço é este e eu li Júlio no lugar do destinatário sem ler o resto do nome. Abrimos e vimos isto.
- Realmente é meu – disse o rapaz – Eu contratei um serviço que o próprio cemitério oferece, mas era pra entregar-me uma urna com as cinzas e não isto.
- Você falou com quem?
- Com um funcionário de lá. O cemitério tem um crematório e eles se prontificaram a fazer tudo, assinar papeladas e entregar-me a urna com as cinzas. Mas foi tudo tratado pela internet, como é feito hoje em dia. Trocamos e-mails, paguei com cartão... Quer ver?
Fomos até o computador e ele mostrou a troca de e-mails. Li-os todos. Nos dois últimos estava a resposta daquele enigma.
O de lá: “Recebemos suas instruções e estamos tratando da exumação do corpo. Qual será o destino dessa ossada após a exumação?”
O de Júlio – “Elas deverão ser cremadas.” Cremadas é o que deveria ter sido escrito, mas o corretor automático corrigiu a palavra “cremadas” para “cromadas”!