Durante uma missa, na Igreja de Nossa Senhora da Encarnação, em Ílhavo, Portugal, meu olhar estava concentrado no altar. Ao centro, a imagem de Jesus Cristo sendo elevado aos céus, marcada pelas chagas e envolvida por uma cruz luminosa, convidava ao silêncio, à oração e à reflexão.
Poucos minutos depois, porém, minha atenção mudou de direção. À minha frente, uma senhora rezava de chapéu. Achei a cena curiosa. Acostumada ao cuidado com que muitos portugueses frequentam os espaços religiosos, estranhei aquele acessório durante a celebração.
De repente, as pessoas ao redor começaram a se movimentar. Do outro lado da fileira de bancos, outra senhora levantou-se rapidamente para ajudá-la. Vieram mais algumas. Eram, em sua maioria, mulheres idosas que pareciam compreender tudo sem necessidade de palavras.
O chapéu caiu, revelando poucos cabelos, consequência de um tratamento oncológico, e um corpo que, naquele instante, já não respondia à própria vontade. Houve um silêncio. Não era o da igreja, mas o da compaixão. Os olhares se cruzavam na tentativa de ajudar. O padre interrompeu a celebração por alguns instantes para que ela pudesse ser socorrida.
Tirei o leque da bolsa e o entreguei na tentativa de amenizar o mal-estar. Quando dei por mim, as lágrimas já escorriam. Imaginei seu constrangimento, sua dor e, por um instante, enxerguei nela um possível retrato da minha velhice. Perguntei-me: como será quando chegar o tempo em que eu depender da ajuda de alguém?
Fiz uma oração que talvez carregasse certa dose de egoísmo: que, sempre que possível, eu seja as mãos que amparam, antes de ser a que precisa ser amparada. Mas a vida não nos oferece essa escolha.
Lembrei-me de uma homilia que ouvi recentemente. O sacerdote dizia que Deus chama a todos, mas nem todos estão disponíveis. Ela respondeu ao seu chamado. Mesmo limitada pela doença, fez o esforço de estar na igreja porque havia algo que o corpo já não sustentava sozinho: a esperança.
Olhei novamente para a senhora. Há uma tristeza particular no rosto de quem enfrenta uma doença cuja cura já não depende apenas da própria vontade. É preciso fé para entrar na igreja, erguer os olhos para Cristo e confiar que, mesmo quando o corpo vacila, a alma ainda encontra um lugar de descanso.
Saí com a impressão de que Deus, por vezes, escolhe os gestos mais discretos para nos ensinar. Nesse dia, não foi a homilia que permaneceu comigo. Foi um chapéu caído, mãos desconhecidas estendidas para amparar uma mulher e a serenidade de quem, mesmo carregando a própria cruz, insistiu em permanecer diante da maior de todas.