O dia em que eu morri de Covid-19

Roberto Mancuzo

COLUNA - Roberto Mancuzo

Data 30/06/2020
Horário 06:00

O dia em que eu morri de Covid foi bem estranho. Porque foi do nada. Estava lá em casa, naquela eterna confusão que a pandemia jogou a gente, tentando arrumar coisas quebradas, cuidar das crianças, “aperfeiçoando” a relação com a esposa, fazendo malabarismo para ganhar atenção e aluno on-line e de repente, puf! Lá estava eu diante de um guichê, fazendo check in com São Pedro para entrar no céu.

Claro que eu estive antes no purgatório, mas tenho a ligeira impressão que passei reto por conta das aulas de catequese da minha mãe. Obrigado, Betinha.

Bem, voltando a São Pedro, assim que ele terminou toda a papelada, eu quis algumas explicações e ele logo foi me dizendo que era assim mesmo, plano de salvação, destino do homem, que tinha vida eterna agora, etc.

Mas não era isso que eu queria saber. Eu tinha algumas dúvidas sobre o motivo que tinha me levado para lá. Esse tal de Covid-19.

E como a próxima leva de “morridos” só ia chegar um pouco mais tarde, São Pedro sentou comigo para um papo celestial.

 

-- São Pedro, o vírus é comunista, mesmo?

-- Eu tenho pouco tempo, se for fazer pergunta idiota eu vou embora.

 

-- Tá bem. Desculpe. É que lá no Brasil tem tanta gente que acredita nisso que eu pensei: “Vai que...” Mas seguinte: quando vai acabar isso tudo?

-- Quando a vacina ficar pronta. Daqui um tempinho.

 

-- Até lá ficamos em casa, sem aula, home office, aquela loucura toda?

-- É o jeito.

 

-- E vai ter outra dessa?

-- A natureza reage ao que o ser humano faz com ela.

 

-- Enigmático, hein? E esse negócio de máscara? Essa foi sacanagem, né? Porque não inventaram uma doença que tivesse que usar uma munhequeira, uma joelheira? Precisa ser este pedaço de pano que sufoca a gente?

-- A humanidade precisava de uma lição de humildade. Estava falando muito e fazendo pouco.

 

-- E colocar marido, esposa, dois filhos e um cachorro num apartamento de dois quartos por 4 meses? Aí vocês superaram...

-- A internet separou a família. Vocês estavam muito descolados um do outro. Muitas famílias se encontraram de novo, amigos de longe estão se falando toda semana, a solidariedade aumentou. Muitas pessoas ainda resistem, tem um lance aí de violência doméstica que precisamos olhar com mais cuidado, mas a maioria se prepara para um futuro melhor.

 

-- E esse abre e fecha de comércio, economia enlouquecida. Rapaz, isso quebrou muita gente...

-- Mas vocês não são capazes de uma quarentena mínima. Se tivessem ficado quietos já em fevereiro, tudo tinha acabado. Na sua cidade mesmo, Presidente Prudente, nunca teve quarentena, né? Sempre ficou um monte de gente andando de lá para cá, umas furadas de regra aqui e ali. Você mesmo foi a algumas festas, não foi? A galera aproveitou e depois fica reclamando dos políticos.

 

-- Mas falando nisso, vocês foram feras nesta parte. Uma geração e políticos como essa para lidar com uma pandemia desse tamanho?

-- Mas vocês que votaram neles. Se o cidadão de bem ou o playboy não lideram do jeito que querem, não é culpa nossa.

 

-- Que coisa. E eu nunca imaginei que fosse morrer de Covid...

-- Não, você não morreu. Na verdade, você nem morreu. E acorda logo deste sonho porque a sua aula com a turma de assessoria de imprensa vai começar daqui dez minutos.

 

 

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