O dia em que fui demitido e morri por oito horas

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 13/07/2021
Horário 06:00

Foi durante uma temporada de três meses na cidade de Córdoba, na Argentina. Eu estava lá para cumprir uma etapa do meu doutorado e neste dia especificamente eu fui “demitido”, “morto” e recebi até mesmo muitas homenagens. 
Era o primeiro dia de aula aqui na universidade onde trabalho. Nas redes sociais os perfis acadêmicos estavam no maior gás de retorno e eu resolvi, então, fazer postagem de boas-vindas e bom início de semestre aos alunos. Eu nem lembro direito o que escrevi, mas como ainda levaria umas três semanas para voltar e reassumir as aulas, mandei alguma dessas mensagens positivas.
Isso era por volta das 8 da manhã. Alguns comentários de retorno e eu lembro de conseguir dar umas curtidas antes de pegar meu equipamento e sair para uma cobertura fotográfica. Eu tinha conseguido acesso para cobrir uma etapa do Rally Dakar, que iria acontecer nas imediações de uma cidade chamada Carlos Paz. O lugar era um pouco afastado e eu sabia que naquele dia ficaria bem incomunicável.
Acontece que assim que saí de casa e me desliguei completamente da rede, um aluno postou a seguinte mensagem: “Poxa “profe”, vai ser ruim estar aqui sem o senhor. Saudades”. Claro que ele se referia à minha ausência no começo da aula, mas não foi bem assim que muitos entenderam. Não demorou para a capacidade insana da rede social pirar e o que vem a seguir ocorreu sob minha total ausência, ou seja, como eu estava no meio do nada fotografando o rally eu não tinha ideia do rolê que estava acontecendo com minha pessoa. 
Uma aluna colocou que era realmente uma pena que a universidade tivesse me demitido assim, sem mais nem menos, que onde já se viu e tal. Oi? Como? Mais gente se solidarizando e mandando emoji de dó. E até um protesto começou a ser organizado, coisa que fez com que me “achasse” quando li...
Mas de repente, a biruta da rede social mudou de novo, só que daí mudou grande! Um rapaz entrou nos comentários e disse que eu não tinha sido demitido não, mas que não seria fácil entrar na sala de aula e ver que eu não estaria lá... Meus amigos, nem era isso, mas adivinhem o que muita gente achou? Morreu, claro.
E aí o bicho pegou. Morreu como, quando, onde? Como assim? Por que ninguém avisou? Ninguém sabia que eu estava doente e rolou até suspeita da tríade assalto, sequestro e morte. Teve um que deixou transbordar a solidariedade e a empatia e perguntou se então haveria aula naquele dia.
Quando eu voltei para casa, já à noite, comecei a ver as redes sociais, percebi uma movimentação diferente no meu perfil e a enxurrada de comentários. Pior: saquei que primeiro fui demitido, depois estava morto e enterrado e isso já fazia mais ou menos umas oito horas! Não acreditava naquilo. Era surreal demais. 
Comecei a desmentir, a explicar o que aconteceu. Alívio para muitos, algumas palavras de apoio, muitas risadas. Mas sabe que fiquei depois com uma sensação de que nem todos que comentaram falaram comigo de novo e outros que só leram e não comentaram poderiam não ter visto que tudo não passou de um engano. Enfim, pode até ser que alguns ainda achem, nove anos depois, que eu morri mesmo.
Mas eu estou bem vivo e hoje como professor de Mídias Digitais, conto esta história quando vou falar de ciberespaço e cibercultura. E o principal aprendizado que esta situação tosca trouxe é que o mundo pode até ser virtual, mas os efeitos e as ações são bem reais.
 

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