Dizem que o amor é cego, mas no meu caso, ele é estrategista, fala português traduzido pelo Google e carrega um fuzil. Tudo começou com uma notificação despretensiosa no Messenger. Enquanto eu me preocupava se os boletos iam vencer, Shelly de Israel — ou seria Selly? O nome mudava conforme a emoção — já estava de olho no meu perfil, decidindo que eu era o "escolhido".
Não foi um algoritmo que me selecionou. Segundo ela, foi uma linha direta com o céu. Enquanto Shelly combatia o terrorismo e desbravava desertos, Deus deu um tempo na agenda universal para apontar pro meu avatar do Facebook e dizer: "É esse o cara". Quem sou eu para questionar uma recomendação dessas?
O plano de guerra (e de aposentadoria)
Como todo bom herói de ação, fui logo relatando o fato para a Mulher-Maravilha (minha digníssima esposa), afinal, transparência é tudo quando se está prestes a herdar uma fortuna de guerra. "Segue o jogo", pensei, já sentindo um leve sotaque de agente secreto.
A história da Shelly faria o James Bond pedir demissão por falta de criatividade:
Localização: Uma missão ultra-secreta na Líbia.
O achado: 100 caixas abarrotadas de dólares perdidas desde a época de Muamar Kadafi.
O prêmio: Singelos 30 milhões de dólares.
Ela não queria um investidor, um banco ou um paraíso fiscal. Ela queria um porto seguro, um homem fiel e, preferencialmente, brasileiro. Shelly prometeu largar o exército israelense, atravessar o oceano e vir morar no Brasil com seus milhões. Eu já conseguia imaginar a cena: ela chegando de tanque de guerra na frente de casa e eu esperando de chinelo e bermuda, pronto para administrar o tesouro de Kadafi.
Entre o dever e o Gmail.
O problema é que o serviço de inteligência da Líbia parece ser bem rígido. Shelly não pode usar Facebook, Instagram ou TikTok. A comunicação é estritamente via e-mail — o último refúgio dos espiões românticos.
Quando vi a foto da minha "soldada da fortuna", eu rezei. Não sei se rezei em agradecimento pela genética privilegiada da moça ou se foi um pedido de proteção para não ser deportado por lavagem de dinheiro imaginário. Mas olhei no espelho e aceitei o fato: eu realmente sou "O cara".
E agora, Magrão? (Ou melhor, James?)
Estou aqui, num impasse geopolítico-sentimental. De um lado, a vida pacata. Do outro, 30 milhões de dólares, uma militar apaixonada e 100 caixas de dinheiro escondidas na areia Líbia que, por algum motivo místico, precisam do meu CPF para serem liberadas.
O que eu faço? Por enquanto, sigo mantendo o disfarce de cidadão comum. Mas se vocês me virem comprando uma ilha particular ou um porta-aviões na semana que vem, já sabem: foi a Shelly que mandou.
Segue o jogo, porque para ser "O cara", a gente tem que aguentar cada "caô" internacional que até minha santa mãe, Da. Mariana duvida!
Conselho de "amigo": Cuidado que esse "amor" costuma pedir uma "pequena taxa de liberação alfandegária" em dólar logo, logo. Se a Mulher-Maravilha descobrir que os 30 milhões viraram uma transferência por Pix para um tal de "Shelly Silva", a missão vai ficar perigosa de verdade!
Você já respondeu o e-mail de aceitação ou ainda está decidindo em qual cor vai pintar o seu iate? Vejam vocês.