O fotógrafo e o pescador

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 13/01/2026
Horário 05:30

Às vezes é quando Deus quer. Outras vezes é quando o pescador acerta o lugar pela experiência ou por pura sorte. E, às vezes, é o instinto e a esperteza do peixe.

Se a pesca no mar não estiver entre as atividades mais desafiadoras e enlouquecedoras que existem, mudo meu nome e olha que já o tenho em boa conta por quase 51 anos.

Daqui do meu lugar privilegiado de jornalista, fotógrafo documental, turista e flaneur fico fazendo contas que não fecham diante da imensidão do oceano: como eles sabem em que lugar colocar a rede? Por que ali e não cem metros à frente? E por que neste horário? Uns às duas da manhã, outros às seis e alguns mais tarde ainda, perto das oito. Mas é uma escala? Está tudo combinado com os peixes? 

Eu não estou de brincadeira, não. Queria estas respostas, porque aqui no nosso mundinho tudo é meio que controlado. Eu saio de casa, vou para universidade, os alunos estão lá e me ouvem (quase todos), aplico uma atividade e sei onde vai dar, onde vão chegar com aquilo e mais para frente reorganizo tudo e passo a limpo. E pronto, hora de voltar para casa. 

Mas e ali no mar? Tudo muda rápido, as ondas não só vêm e vão, como diz o poeta, mas desafiam, chamam para a festa, dançam ao sabor das marés e correm para um lado mais grossas, e para outro, mais largas e espumantes. E o pescador só observa e sabe que entrar cinco minutos mais tarde pode poupá-lo de aborrecimentos ou aproveitar a chance do levante das águas e a hora certa para ganhar impulso.

Às vezes saio com estes homens para fotografar “lá fora”, como dizem. E aí eu piro mais ainda. O mestre que está no leme e o contramestre que vai na proa se comunicam de uma forma que aplicativo nenhum no mundo um dia conseguirá se igualar. Uma abanada tímida de mão para esquerda e o barco vai. Para a direita, o barco segue. 

De repente, uma balançada com a cabeça e lá estamos nós dando uma guinada de quase 180 graus. De repente, chega-se a um lugar, marcado com uma bandeira, que boia em meio às ondas. “Por que você jogou aqui?”, quero saber. E a resposta vem simples: “Te cuida, piá”. E horas depois eu vejo a rede subir de volta com salteiras, cavalas, pescadas e ciobas, espécie de peixe com uma cor de rosa bem clarinha, lindo mesmo. 

E como um bom fotógrafo que primeiro capta a cena nas retinas, eu vou colecionando quadros. Vez em quando, apenas, eu lembro que estou com a câmera e clico, clico e clico. Tento materializar na fotografia a beleza da vida que acontece bem à minha frente. Mas qual o quê? Quem consegue isso? Na melhor das hipóteses só reconto a poesia.
Se um dia alguém me perguntar se compensa sair com um homem do mar para fotografar um dia de pesca, eu só digo: “Te cuida, piá”. E vou sorrir de lado, bem quietinho. 

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