O homem da caixa

OPINIÃO - Thiago Granja Belieiro

Data 07/02/2026
Horário 04:30

O sujeito voltava do trabalho, a passos rápidos, com andar firme, convicto da necessidade de chegar em casa. Havia descido do ônibus a poucos metros, passando por movimentada avenida do seu bairro. Vinha pensando nas dificuldades encontradas, quase sempre, na sua rotina laboral, bem como, é preciso dizer, na sua condição de arrimo de família, como chamam, no interior do Brasil, aos pais de família. Não parecia triste ou insatisfeito, antes disso, ia até bem, nesse sentido. Por outro lado, andava sisudo, demasiadamente sério, pouco entretido, confusamente empedernido em seus pensamentos, que rara vezes compartilhava com os seus. 
Sua família, a esposa, em especial, notava que o homem mudara, mostrando-se sempre irritadiço, impaciente, sem sorrisos, dado a reflexões, que realizava, quase sempre, após o jantar, sozinho, sentado no quintal, a fumar cigarros. Apesar disso, não via motivos para maiores preocupações, talvez fosse assim que os homens se comportem depois de certa idade, pelo menos tinha sido assim com seu pai e depois, com o irmão mais velho. Naquele dia, porém, o homem não chegou em casa, como de costume, o que fez com a esposa saísse à sua procura para ver se o encontrava pelo caminho, do ponto até em casa. 
De fato, o encontrou, porém, em condição pouco usual. O sujeito havia encontrado na calçada, uma enorme caixa de madeira, abandonada em um canto da avenida, grande o suficiente para caber um homem adulto sentado, confortavelmente. Quando se deparou com a caixa, logo pensou em entrar nela, o que o fez, depois de examinar sua constituição e robustez, que julgou suficiente para acolher seu corpo franzino. Algumas pessoas o viram entrar na caixa, mas andavam distraídos com suas próprias vidas, de modo que a situação passou despercebida. 
A esposa, contudo, o encontrou com certa facilidade, pois a caixa estava exatamente no caminho que o homem fazia, diariamente, até sua casa. Quando o viu dentro da caixa, demorou a entender de quem se tratava, pois já ia escurecendo, àquela altura do dia. Ficou chocada, contudo, quando teve certeza de que era seu marido. O questionou a respeito, o chamando, como era de esperar, de louco. O homem apenas assentiu com a cabeça, recusando-se, entretanto, a deixar a caixa, quando ela pediu que o fizesse. Bem, a situação complicou-se, severamente, dali em diante. A mulher insistiu alguns minutos, sendo ignorada. Não sabia o que fazer. 
O marido, esse sim, parecia mais tranquilo do que o habitual. Sentado, com certo conforto, encostado na parede da caixa, não podendo ser visto pelos que passavam, parecia absorto, em pensamentos pueris e felizes, às vezes, soltando pequenos sorrisos, em outros, murmurando palavras curtas, ditas a si mesmo. Resolvera, por ora, a ficar a li mesmo, na caixa, feita sua morada, dali em diante. A esposa, vendo que seria inútil demovê-lo de semelhante disparate, desesperava-se, conformando-se, contudo, que aquilo não duraria muito. Perguntou ao homem se ele precisava de alguma coisa, se oferecendo a voltar dali a pouco com víveres. Quero meus cigarros! Foi a resposta. 
 

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