Os ventos trouxeram folhas que parecem dançar com os caprichos e sinuosidades de sua força passageira, para, em seguida, estabelecerem como sua morada os meios fios das calçadas, agora tomadas por folhas verdes e secas. Sentado no meio fio, tomado de folhas, de cócoras, está um homem, de uns 55 anos, de boa aparência, embora bastante envelhecido para a idade. Branco, mas de pele meio amarelada, magro, mas uma barriga saliente, cabelos bem penteados e finos. Segura um cigarro com uma das mãos, com a outra, segura a cabeça, cujos olhos se voltam para baixo, como se houvesse falta de vontade de olhar a vida de frente.
Difícil dizer o que ele fazia ali, pois aparentemente, nada fazia, apenas fumava seu cigarro em frente de casa, sem pressa e sem afazeres, às 4 da tarde de um dia comum. Parecia triste, contudo, ora dava risinhos, murmurava algumas palavras, como se dialogasse com sua própria consciência, concordando ou discordando de si mesmo, referendando algumas posições e voltando atrás de outras. Pensava nos filhos, que, de certa forma, abandonara quando eram adolescentes, que ficaram aos cuidados da mãe. Agora que são adultos, homens feitos, como se diz, pouca ou nenhuma atenção dispensam a ele.
No momento em que certas decisões são tomadas, no plano da existência comum, é quase impossível antever seus resultados, sobretudo, os humanos, isto é, aqueles que envolvem os sentimentos, disposições do afeto e outras coisas relacionadas. Na ocasião da partida, as motivações do homem pareciam de todo racionais, as melhores possíveis naquela circunstância. Cidade maior, rica, possibilidade de trabalho e vida melhor. Pensou nisso. Pensou também em fugir de certa opressão da família da mãe dos meninos, cujo patriarca, homem bravo, meio jagunço, o ameaçara de morte. Por outro lado, envergonhava-se, pois em seu íntimo, sentia-se traído, preterido por outro. O filho mais novo, ainda criança, poderia nem ser seu.
Essas razões o levaram a tal decisão. Não considerou, como dito, os sentimentos dos rebentos, que desde então, viveram sem pai, só com mãe. A distância entre as cidades, a velha e a nova, não eram tão grandes assim, mas as dificuldades financeiras advindas de decisão errada fizeram a distância aumentar consideravelmente, ao ponto de inviabilizar visitas corriqueiras, que se tornaram, então, bastante esporádicas. O arrependimento parece sentimento vão, haja vista que não existe reversão dos fatos em semelhantes ocasiões.
Mas o homem continuava ali, pensando no que poderia dizer aos meninos. Em seus pensamentos, fluíam palavras soltas, conexas e desconexas, do que falaria. Queridos, eu os amei, sempre, mais do que tudo. Não tenho e nunca tive pretensão de os magoar, se errei, o fiz, talvez, pelos meus próprios defeitos, que certamente, não são poucos. Eu os amo, e sei que fui bom pai, enquanto estive aí, com vocês. O pequeno me odeia, e talvez ele tenha seus motivos, afinal, quem sou eu pra ele? Não sou ninguém, só soube que era seu pai quando o vi, já adulto, depois de 10 anos sem vê-lo. Gostaria de saber mais sobre ele, de o conhecê-lo, verdadeiramente. Quem é você, meu filho?