O “Libertango” da Albirroja: a longa viagem de Miguel Ángel

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 03/07/2026
Horário 06:00

O asfalto que separa o Texas de Massachusetts não é feito de terra, mas de tempo. Para Miguel Ángel Cardozo, cada quilômetro daquela rodovia interestadual era um ano de ausência, um pedaço do exílio que começou nos anos 80, sob o céu de chumbo e silêncio da ditadura de Stroessner. Ele havia partido com o medo costurado no forro do casaco e a miséria rondando os calcanhares, deixando para trás a promessa de um retorno e o rosto do seu grande amor, uma imagem que o tempo não conseguiu desbotar, apenas transformar em uma fotografia em preto e branco na memória.
No fone de ouvido, o bandoneón de Astor Piazzolla rasgava o peito de Miguel. “Libertango”. A música não era paraguaia, mas a melodia dramática, urgente e cortante traduzia perfeitamente a sua saudade — aquela palavra que os norte-americanos não entendem, mas que no coração de Miguel queimava como o sol do meio-dia em Assunção. O tango de Piazzolla era a trilha sonora de sua longa viagem rumo à esperança, um compasso de passos cruzados entre o que se perdeu e o que se sonhava reconquistar, agora que sua pátria, sob os novos ventos de Santiago Peña, ousava costurar um novo destino.
Quando o ônibus finalmente parou nas cercanias do Gillette Stadium, em Foxborough, o ar frio de Massachusetts foi rompido por um mar de camisas alvirrubras. Miguel Ángel vestia a sua. Uma peça surrada, desbotada pelos anos e pelas lavagens em lavanderias de beira de estrada, mas que carregava o suor de sua identidade. No peito, o escudo da Albirroja era seu passaporte, sua certidão de nascimento, sua única riqueza.
Ele entrou no colosso de concreto timidamente. O imigrante que passou décadas tentando ser invisível para não ser devolvido ao esquecimento, de repente, viu-se cercado por iguais. No início, a voz saiu presa, um sussurro esmagado por 40 anos de silêncio: “Paraguai... Paraguai...”. Mas, à medida que a bola rolava no gramado, o sussurro virou correnteza. O futebol ali não era apenas um esporte; era a pátria de chuteiras rodando pelo campo, a chance de Miguel tocar a terra que não pisava há quase meio século.
Do outro lado, a poderosa Alemanha. Uma máquina gélida, precisa, imensa. Mas Miguel Ángel não sentia medo. Quem sobreviveu à sombra da tirania e à solidão do exílio não teme o rigor tático europeu.
O jogo foi um poema de resistência. Noventa minutos de um Paraguai que jogava com o coração na ponta das travas, defendendo cada palmo de chão como se defendesse as fronteiras de sua própria história. A prorrogação veio como um tango lento, dramático, onde cada desarme era uma nota de sofrimento. E então, o apito final. A decisão seria nos pênaltis.
O estádio prendeu a respiração. Miguel Ángel fechou os olhos. Em sua mente, o bandoneón de Piazzolla silenciou para dar lugar ao som do vento nas folhas de laranjeira de sua infância.
A Alemanha errou a última cobrança. E o jogador paraguaio, Jose Canale, sabia que sua cobrança seria uma conquista épica. Seu povo merece sorrir. Miguel Ángel sente segurança em Canale e ele vê a bola paraguaia viajando em direção à rede. Gol.
O Gillette Stadium ruiu em uma explosão de vermelho e branco. Naquele exato instante, o muro do tempo desabou para Miguel Ángel. Ele não era mais o operário anônimo do Texas; ele era o menino de Assunção. As lágrimas que desceram por seu rosto marcado pelas rugas da saudade não eram de tristeza, mas de batismo.
Miguel gritou. Um grito represado desde os anos 80, um rugido que cruzou as Américas para ecoar no Paraguai, para chegar aos ouvidos do amor que ele nunca esqueceu. Ele abraçou desconhecidos, derramou sua alma no cimento daquele estádio e, enquanto a Albirroja comemorava no gramado a queda da gigante Alemanha, Miguel Ángel Cardozo finalmente voltou para casa. Não de avião, mas nos braços de um povo que, através de uma bola de futebol, relembrou ao mundo a força de sua dignidade.

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