Há quem acredite que um museu seja apenas um depósito elegante de objetos antigos. Salas repletas de objetos vindos de lugares distantes. Máscaras africanas, esculturas asiáticas, tecidos andinos. Cada peça sinalizada com uma legenda cuidadosa, uma data, uma procedência. Mas a experiência ensina outra coisa. Os objetos expostos carregam uma viagem, uma história interrompida, uma pergunta ainda sem resposta. E pode provocar nos seus visitantes as mais diferentes reações.
Imagine a situação da Glicéria, aquela jovem mulher tupinambá diante do manto sagrado do seu povo, suspenso atrás do vidro e iluminado por uma luz discreta de uma sala qualquer do museu du Quai Branly - Jacques Chirac, em Paris. Enquanto os visitantes passavam diante da vitrine, lendo rapidamente as informações, Glicéria teve a impressão de que ele continuava aguardando a sua visita.
Glicéria analisou atentamente o caimento das milhares de penas de guará, o ponto da malha feito com uma técnica semelhante ao jereré (instrumento de pesca artesanal) e conversou com o manto ancestral. De olhos fechados, ela via as mulheres sentadas e as pessoas com penas ao redor. Via também alguém fazendo a malha do manto. O que mais lhe chamou a atenção é que era uma mulher. Dava para ver que o manto era de algodão artesanal e, em cima, tinha outra malha que lembrava muito a linha do tucum, que é feita de palha, com linha vegetal diretamente da folha, que gera aquela lã. Ela foi percebendo que esses materiais se achavam na sua comunidade e que a linha tinha durabilidade porque fora encerada com a cera das abelhas jataí. Pensou nos pajés e líderes indígenas que o utilizaram em cerimônias, quando floresta, rio, animais e seres humanos ainda participavam da mesma conversa. O manto parecia saber disso. Afinal, para os Tupinambá, essas peças não são apenas objetos históricos ou etnográficos. São seres vivos, entes sagrados que mantêm viva a ligação entre os que estão presentes e seus ancestrais.
Atualmente, a comunidade indígena tem solicitado que o artefato retorne definitivamente para a sua terra de origem. No mundo, existem apenas 11 mantos tupinambás deste tipo, produzidos entre os séculos XVI e XVII. Todos estão na Europa, em museus da Dinamarca, Itália, Suíça, Bélgica e França. O raríssimo Manto Sagrado Tupinambá que estava na Dinamarca já retornou ao Brasil e está sob a guarda do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Talvez seja esse o grande desafio dos museus contemporâneos. Preservar também exige escutar. Escutar os povos indígenas. Escutar as memórias que não aparecem nos inventários. Escutar, inclusive, as perguntas incômodas sobre restituição, reparação e justiça histórica.