O meu professor de fotografia 

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 14/12/2021
Horário 06:00

Eu levei um susto quando o vi pela primeira vez na sala de casa. Você simplesmente entrou e se apresentou: “Olá! Tudo bem, hahah? Meu nome é Anselmo Ueti! Sou seu vizinho agora, hahaha!”
Fiquei parado, sem saber o que dizer. “Quem é esse japonês louco, que entra assim na casa dos outros?”.
Na verdade, se eu soubesse que você me faria descobrir na arte da fotografia uma razão de viver, talvez tivesse lhe dado logo um abraço.
Se eu soubesse que me ensinaria muito mais sobre amizade sincera do que qualquer outra experiência que tive na vida, talvez me preparasse melhor para sua partida tão precoce. Está muito difícil.
Fato é que após sua apresentação, eu descobri logo que você era fotógrafo e dos bons! Tinha feito campanhas maravilhosas lá por São Paulo e aqui em Presidente Prudente, mas já estava meio que aposentado. 
Lembro certinho da sala de sua casa. Havia ali algumas fotos que fez durante um mochilão na América Latina. Uma delas, em especial, tinha pessoas sentadas em um vagão no Trem da Morte e ela sempre me hipnotizava. Sonhava com aquele momento que você teve, quem eram aquelas pessoas, a luz impecável, o enquadramento exato!
Um dia eu estava fazendo almoço, você chegou e falou: “Não sei nem fazer miojo, hahahah”. Cara, adorava que você sempre terminava as frases com uma boa risada oriental.
E naquele momento, tive uma sacada brilhante que mudou totalmente minha vida. 
Perguntei: “Anselmo, vamos fazer um trato. Eu te ensino a cozinhar e você me ensina a fotografar. O que acha?” 
Você topou na hora. E riu!
Tempos depois, eu consegui ensiná-lo apenas a fazer um macarrão com molho vermelho. Mas em contrapartida, você abriu meus olhos de uma forma que nunca mais fui ou serei o mesmo na fotografia. 
No fundo, acho mesmo que você queria era me ensinar e topou o lance de cozinhar para ter uma desculpa. 
O que eu aprendi contigo não foi a técnica fotográfica, que recebi dos professores na faculdade, mas sim o olhar fotográfico. 
Nas longas tardes que passamos juntos, aprendi o valor de incluir os cinco sentidos na fotografia e que nenhuma imagem pode ser feita sem intenção. Isso é mais do que saber qualquer elemento de linguagem. 
Entendi com você, Anselmo, que a câmera tem muitos botões, mas não sente como nós humanos sentimos! E é aí, neste ponto tão ignorado por tantos fotógrafos, que está o segredo das grandes imagens.
E um dia, você me trouxe uma câmera automática, pequenininha, e falou que estava na hora de fazer um teste: “Tem um concurso lá no Matarazzo e você vai participar”. 
O prédio das antigas Indústrias Matarazzo em Presidente Prudente seria demolido para dar origem ao Centro Cultural atual, mas a Prefeitura queria que as ruínas fossem documentadas e abriu um concurso fotográfico. 
Eu disse que não ia lá passar vergonha, mas lembro que insistiu: “Vai que seu olhar já está pronto”. 
Chegando, encontrei um monte de gente com câmeras enormes, equipamentos e tudo mais! Pensei comigo que de duas uma: ou eu seria um fiasco ou pelo menos iria me divertir. 
Tive duas fotografias premiadas!
Anselmo, penso que ali honrei teu esforço e não há dia sequer que não lembre de tudo que aprendi e procure colocar em prática sua ideia ao mesmo tempo simples e imensa do que é uma boa fotografia. 
Ontem, quando soube de sua morte rezei por você, pelos seus filhos e sabe o que mais?
Eu pedi que depois de chegar aí no céu, você ainda me dê mais uma, porque essa ficou faltando: que eu consiga ter o olhar sempre leve e calmo para as durezas da vida, assim como era o seu. E que quando assim não for, que eu encare os problemas da mesma forma que você sempre fez quando me encontrava: com um sorriso enorme e uma risada que nunca mais sairá dos meus ouvidos. 
Vá em paz, amigo! Deus deve estar feliz com você por aí e com certeza vocês já fizeram uma boa selfie!
 

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