O mito de Sísifo e o músico prudentino

OPINIÃO - Felipe Moraes

Data 13/06/2026
Horário 04:30

A música faz parte da vida cotidiana dos prudentinos. Ela está presente nos bares, nas igrejas, nas escolas, nos projetos culturais e também dentro das casas, onde muitos músicos passam horas repetindo exercícios, estudando repertório e buscando um aperfeiçoamento que, na prática, nunca se encerra: o aprendizado musical. 
Há uma imagem da filosofia que ajuda a compreender esse processo. Na mitologia grega, Sísifo foi condenado a empurrar eternamente uma pedra montanha acima. Quando chegava perto do topo, a pedra descia montanha abaixo, obrigando-o a recomeçar. O filósofo francês Albert Camus transformou essa história em uma reflexão sobre a condição humana, mostrando que o sentido da vida pode estar justamente no ato de continuar. Para nós, músicos, essa metáfora faz muito sentido. 
Todos os dias os músicos retornam ao instrumento e começam o ritual: abrem o método de estudo ou a partitura, ajustam a postura, aquecem e repetem movimentos que já realizaram centenas de vezes. Muitas vezes, enfrentam as mesmas dificuldades: precisão, coordenação, tempo, dinâmica, resistência física e concentração.
Quem vê apenas a apresentação final dificilmente imagina a quantidade de repetição que existe por trás da performance. 
Em cidades como Presidente Prudente, onde muitos artistas conciliam apresentações, aulas, gravações e outros trabalhos, essa realidade se torna mais intensa. O músico prudentino frequentemente constrói sua trajetória entre ensaios noturnos, deslocamentos e uma rotina silenciosa de estudo que quase nunca aparece para o público.
E talvez seja exatamente nesse ponto que a música revele uma de suas maiores lições.  
A repetição não é um castigo; ela faz parte da própria arte. Nenhum músico “vence” o instrumento definitivamente. Sempre haverá algo para desenvolver: um novo repertório, uma nova linguagem, uma nova técnica ou uma nova forma de tocar seu instrumento.  
Quando o artista compreende isso, o estudo deixa de ser apenas obrigação e passa a ganhar significado. O esforço cotidiano deixa de representar fracasso e passa a simbolizar o acúmulo de habilidades, experiências e domínio sobre seu instrumento. 
Talvez seja por isso que muitos músicos permaneçam tocando por décadas, mesmo diante das dificuldades do mercado cultural. Há algo profundamente humano no ato de retornar diariamente ao seu instrumento e tentar novamente.  
No fundo, a música nos deixa uma lição simples: não é a chegada que sustenta o artista, mas o caminho. 
E talvez possamos imaginar o músico feliz, assim como Sísifo na reflexão de Albert Camus. Não porque a subida seja fácil, mas porque o próprio esforço passa a dar sentido à caminhada. 
 

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