O olhar do outro nos faz vivo

Assisti uma entrevista muito interessante com um jornalista e escritor brasileiro, chamado Raul Juste Lores, nascido em Santos. Ele é também um pesquisador em arquitetura e urbanismo. Em 2011, ganha um prêmio APCA de arquitetura, na categoria difusão. Ele tem uma de suas obras destacada, chamada “São Paulo nas alturas” e um pensamento muito curioso, que remeteu-me à minha infância. Fez-me lembrar dos sorveteiros de outrora, com seu apito, anunciando sua chegada, andando livremente pelas ruas. O velho padeiro com seu pão doce novinho e sua inesquecível buzina. A folia de reis, no dia 6 de janeiro, com suas danças e músicas típicas e tocantes, anunciando o nascimento de Jesus!
Lembro de minha mãe eufórica, meus irmãos também, ela muito crente, com muita fé, os convidava a entrar e instalar-se para cantar e realizar sua alegoria. Era um agito só e muito envolvimento com os vizinhos. Havia vizinhos! As crianças ficavam envoltas do sorveteiro e o homem do algodão-doce, parecia “enxame de abelhas”. Enfim, deu saudades daquele tempo em que todos se sentavam em suas calçadas para prosear. Havia movimento, barulho, animais soltos e crianças brincando. Hoje não temos vida nas calçadas!  
Ele dizia, durante a entrevista, sobre olhar - ao caminhar na rua - para o interior das casas das pessoas, porque as portas permaneciam abertas, permitindo bisbilhotar até o programa de televisão que o vizinho assistia. Realmente, estamos convivendo atualmente, com bairros inteiros, praticamente isolados. Houve uma evasão, esvaziamento grande de moradores das casas térreas, aumentando consideravelmente, placas dizendo, “vende-se“ ou “aluga-se” em massa. Migrações e mudanças para os grandes condomínios horizontais ou verticais com portarias tornaram-se uma grande realidade. 
À noite, transitando pelos bairros, nota-se um silêncio lúgubre. Na entrevista, ele elogia muito os parques e as praças, pois, pessoas cruzam com pessoas, um bom dia ali, outro acolá, e assim trocamos olhares, sorrisos, ouvimos vozes e sorrisos. 
O olhar do outro nos faz vivo. Quando nascemos, a face da mãe é o nosso primeiro espelho. O primeiro olhar da mãe é fundante. Houve realmente, aumento vertiginoso de condomínios horizontais e verticais fechados e privados, os chamados palitos. E hoje também não se frequenta clubes, piscinas do clube, quadras, e assim os clubes estão ficando obsoletos e as pessoas preferem isolar-se, permanecendo em suas próprias piscinas e conforto. 
As feiras hortifrutigranjeiras nas grandes avenidas também estão tornando-se raras. Vivemos uma atualidade do medo. Como podemos pensar sobre os novos insights, ideias relacionadas e inspiradas nessa realidade contemporânea de novas propostas, cujo grande ingrediente é o medo? Novos empreendimentos, propostas sedutoras e encantadoras estão tomando forma, estruturando e tornando-se conceitos, que se edificam a cada dia. 
Preservar edifícios históricos e áreas de valor cultural, misturar velho e o novo de forma harmoniosa, criando espaços que dialoguem, usar tecnologias modernas para preservar e revitalizar áreas históricas, envolver moradores na preservação e desenvolvimento, adaptar espaços antigos para usos modernos, mantendo a essência, seriam grandes propostas. A mistura do novo e do velho pode criar uma identidade única para a cidade.
 

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