Na esquina da minha casa tem um orelhão, como grosseira e carinhosamente, chamamos os telefones públicos da antiga Telesp, amarelos e de design inconfundível. Curiosamente, o referido comunicador público toca ruidosamente, quase todas as noites, sem que ninguém atenda. Sempre atribui o fato aos trotes, perpetrados pelos moleques da redondeza, sempre levados e dispostos a levar as brincadeiras muito a sério. Por tais razões e querendo participar da diabrura, deixava que o mesmo tocasse indefinidamente, de maneira a fazê-los desistir da arte.
Certa vez, quando saí na calçada para retirar o lixo, o bendito tocou, em alto e bom som. Não pensei duas vezes e prontamente corri até a esquina e retirei o telefone do gancho. Para minha surpresa, havia uma mulher do outro lado da linha, adulta, com voz embargada e séria, que perguntou:
___ É da casa do Marcelo? Só pude responder que não e rapidamente expliquei se tratar de um telefone público, localizado na Rua Joaquim Nabuco, próximo ao número 236. A mulher continuou:
___ Pois avise o Marcelo que estou esperando um filho dele. Diga ainda que o bebê está bem e que deve nascer em setembro. Pode dizer também que não tenho raiva dele, antes disso, o queria de volta. Após essas breves palavras, a comunicação cessou bruscamente. Naturalmente que não fazia ideia de quem fosse o tal Marcelo, de modo que só pude guardar a informação para mim. “Espero que a criança um dia conheça o pai”, pensei.
Nas semanas seguintes, o telefone voltou a tocar, algumas noites, e continuei ignorando o fato, ciente da insistência dos meninos. Sentia, na realidade, enorme curiosidade e uma certa necessidade de atender aos chamados. Numa sexta feira atendi. Parecia a mesma mulher, que me chamou de Marcelo, o interlocutor com quem esperava conversar:
___ Marcelo, tudo bem? Nosso bebê está ótimo, é um menino. Que pena que não foi na consulta, ia poder escutar o coraçãozinho dele, bate bem forte já. Avisa sua mãe, ela vai gostar de saber. Atônito, respondi:
___ Senhora, esse é um telefone público e não sei quem é Marcelo. Você precisa de ajuda?
___ Não, não, não preciso de ajuda. Só fala para esse safado que está aí do seu lado me atender, por favor!! Não sou mulher para ter filho sem pai. “Gente maluca”, pensei comigo. Disse um “Pode deixar”, desliguei e fui pra casa.
Na semana seguinte, em uma terça-feira, o telefone tocou novamente. Dessa vez, corri para atender, mesmo sabendo que não era pra mim. Do outro lado da linha uma voz masculina, grave e forte:
___ O senhor é o morador da Rua Joaquim Nabuco? Perguntou. “Sim, sou eu”, respondi.
___ O senhor por acaso tem notícias da Mariana?
___ Mariana? Hum, acho que não. Ela está grávida, por acaso? Se sim, talvez eu conheça, quer dizer, não sei, ligou uma mulher aqui, dizendo estar grávida. Você é o Marcelo?
___ Não, não sou o Marcelo. Também não conheço ninguém que esteja grávida. O senhor está de brincadeira comigo? Perguntou severamente.
___ Não estou brincando senhor. Eu só atendo o telefone da rua de vez em quando.