O poeta que virou carroceiro        

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 19/01/2020
Horário 04:30

Ele via o mundo com olhos de um artista. Um sonhador de milhões de sonhos. Ainda jovem recitava a realidade com versos de um poeta. Não conhecia a maldade e muito menos a ambição. Gostava de pintar e me falar de Monet, Rembrandt, Modigliane, Van Gogh, Da Vinci e Renoir. Quase todos esses gênios morreram na miséria, Magrão. Era dolorido saber que Van Gogh cortou parte da sua orelha esquerda, embrulhou em um jornal e foi dormir com a prostituta Rachel que trabalhava no Bordel de Madame Virginie. Naquela noite em Paris, dormiu derramando seu próprio sangue. Um ano e meio depois dessa mutilação, se suicidou com um tiro de revólver no estômago.

O amigo Gauguin, outro gênio da pintura, fez um breve e aliviado comentário: "Foi uma sorte para ele, foi o fim dos seus sofrimentos”. Puxa Alemão que triste né. Seu poeta predileto é Olavo Bilac e teve a honra de recitar a Via Lactea com outro grande ídolo: Belchior. Que noite memorável para esse meu amigo, Olavo Bilac era também o poeta preferido de Belchior. Me lembro da sua primeira paixão, um amor que parecia um samba sobre o infinito. O mundo para ele era como um quadro de Paul Klee. Estava sempre em choque com a realidade. Sua natureza era criar polêmica, seu espírito sempre foi contestador, uma forma de ser amado. Queria chamar a atenção. Seu ego alimentava esse comportamento como se fosse um lobo faminto.

Criou a decoração mais linda no salão do Tênis, nos áureos tempos de ouro dos carnavais. O circo foi o tema. O presidente era Dr. Jaime Barbosa, um fanático por carnaval. Entrou para a história como o melhor presidente que promoveu os melhores carnavais de salão do clube e os melhores desfiles de rua da lendária Escola de Samba os Malacos do Tênis. E no carnaval tem que ter "treta" né Jaimão kkkk. Malacos foi e continua sendo a maior expressão cultural da história do clube, criada por Walter Maciel (in memorian), mais conhecido como Mestre Amendoim.

Na alegria dos Malacos, o circo ganhou lugar nos corações de uma geração que ousou ser o equilibrista, o mágico, o palhaço que riu do fracasso, procurando a felicidade, se encantando nesse mundo de ilusão. A casa do Alemão era o ponto final dessa alegria que durava apenas quatro dias. Na quarta-feira, tudo iria se transformar em cinzas. Que tristeza. Alemão, altamente alcoolizado, pede atenção a todos que estavam ali e fala a frase mágica: "eu amo todos vocês". Disse a frase e caiu de costas. Não ficou paraplégico porque Deus era carnavalesco e espero que ainda seja. Nasceu para o esporte. Vem de uma família de craques. Seus tios, seu pai fizeram história no basquete prudentino. É descendente dos fundadores da nossa sagrada aldeia.

Costuma falar sempre uma frase de uma música do Belchior quando o amor perde para o culto ao dinheiro: Magrão esse negócio de dinheiro e de família eu nunca entendi bem. E damos risada. Fez arquitetura. Nem tudo é poesia. Nem tudo é um quadro de Paulo Klee. Outras realidades batem na porta do seu coração. Ele insiste em não abrir. Sabe que nesse mundo os poetas morrem na miséria, os pintores cortam as orelhas e os músicos dormem pouco. Sua grande paixão não quis acompanhá-lo. Você tem que ganhar dinheiro, tem que ficar rico, exige a sociedade consumista de valores efêmeros. Assim o mundo vai começando a pintar um outro quadro na mente e no coração desse meu amigo.

Hoje ele trabalha duro, se tornou um grande projetista e se especializou em meio ambiente. Acho estranho quando ele fala em dinheiro. Acho gozado quando ele a cada dia me fala de uma nova paixão, um encantamento, uma transa sensual. Mas ele sabe que o amor é uma coisa mais profunda que um olhar encantador.  Meu amigo virou um carroceiro, não no sentido real, mas sim simbolicamente. Vai segurando as ásperas rédeas da carroça da vida, desviando dos buracos da desilusão, para que seus sonhos não caem no asfalto quente e não se transformem em lágrimas. Ainda carrega a esperança de ouvir as estrelas e não perder o senso. Quem sabe pintar um quadro e falar novamente de Modigliane, Renoir. Alemão, vamos cantar a música de Belchior, a “Divina Comédia Humana”, andando de carro nas madrugadas sob a luz pálida da lua como fazíamos antes do mundo fazer seu trabalho sujo:

"Quero gozar no seu céu
Pode ser no seu inferno
Viver a Divina Comédia Humana
Onde nada é eterno"...

 

 

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