O que existe por detrás dos mapas

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 14/03/2026
Horário 04:05

Muita gente pensa que professor universitário está com a vida ganha. Um bom exemplo poderia ser de William Bunge, geógrafo americano daquele grupo de jovens brilhantes da Universidade de Washington, em Seattle, que no início da década de 1960 desenvolveu modelos matemáticos para a análise de regularidades e padrões espaciais. Era uma época de entusiasmo científico. Computadores começavam a ocupar laboratórios. Modelos espaciais prometiam explicar cidades, migrações, transportes e mercados. William Bunge fazia parte daquele ambiente acadêmico. Seu livro “Theoretical Geography”, publicado em 1962, tornou-se um marco. Muitos imaginavam que seu caminho estava traçado: congressos internacionais, prestígio acadêmico e uma carreira confortável entre gráficos, mapas e equações. 
Mas alguns cientistas têm o estranho hábito de seguir perguntas incômodas. E foi justamente isso que aconteceu. Em vez de permanecer protegido pelos muros universitários, Bunge decidiu atravessar a cidade. Mudou-se para Detroit. Não para os bairros elegantes. Escolheu Fitzgerald, uma região pobre, majoritariamente negra, marcada pela segregação, pelo abandono e pela violência cotidiana. Foi ali que fundou a famosa  “Expedição Geográfica de Detroit”. A palavra “expedição” normalmente evoca exploradores atravessando selvas ou desertos. Mas Bunge inverteu a bússola da Geografia. Em vez de partir para territórios desconhecidos, dirigiu-se para lugares que todos conheciam e ninguém queria enxergar.
Em Detroit suas manhãs começavam nas calçadas, conversando com moradores. Ouvindo mães. Caminhando por ruas onde crianças brincavam entre automóveis apressados. Foi então que os mapas mudaram de significado. Bunge percebeu que não bastava cartografar ruas, edifícios e lotes. Era preciso mapear a exclusão e a injustiça social. Um de seus trabalhos mais conhecidos nasceu de uma estatística policial aparentemente banal sobre atropelamentos infantis. Os dados estavam ali, frios e silenciosos. Mas o mapa de Bunge demonstrou que aquelas mortes não eram acidentes isolados. Eram consequência de uma cidade dividida. Trabalhadores brancos atravessavam diariamente bairros pobres para chegar ao centro, enquanto crianças negras pagavam o preço de um planejamento urbano construído para a velocidade dos automóveis e não para a vida humana.
Para Bunge, a Geografia deixava de perguntar apenas onde as coisas estavam para perguntar por que algumas vidas valem menos do que outras. Talvez essa tenha sido sua maior coragem. Não abandonar a ciência, mas recusar a indiferença. Atrás dos mapas, enxergou vidas. Ele descobriu que a mais importante das geografias não estava nos livros nem nos computadores. Estava nas esquinas onde as crianças tentavam sobreviver.

 


 

Publicidade

Veja também