Em meio a tanto ruído, polarização e discursos cada vez mais rasos, talvez uma das perguntas mais importantes do nosso tempo seja simples e direta: o que vale a disputa? Quando falamos em política, eleições e projetos, estamos disputando exatamente o quê?
A disputa acontece em um plano mais profundo: no modelo de cidade que queremos construir, no tipo de sociedade que consideramos justa e no lugar que cada pessoa ocupa dentro desse projeto coletivo. Disputa-se se a política será instrumento de transformação ou apenas gestão burocrática daquilo que já existe.
Partidos, movimentos e organizações que nasceram da luta social, do trabalho coletivo e da organização popular carregam uma responsabilidade histórica. Eles não surgiram para existir por si mesmos, mas como ferramentas de mudança. Quando essas estruturas se afastam do território, da vida concreta das pessoas e das demandas reais dos bairros, perdem sua razão de ser. A política, então, corre o risco de se reduzir a um jogo institucional, distante da realidade cotidiana.
Onde a organização popular se retira, outros discursos ocupam espaço. A ausência de presença política nos bairros, nas periferias e entre a juventude não gera vazio — gera disputa. E essa disputa, muitas vezes, é vencida por narrativas simplificadoras, autoritárias e descoladas da complexidade social.
O problema não é a falta de participação da população. As pessoas seguem interessadas em seus direitos, em trabalho, em segurança, em cultura, em educação e em dignidade. O que muitas vezes falta é canal de escuta, espaço de formação e presença organizada. Falta política no sentido mais puro da palavra: encontro, diálogo e construção coletiva.
Disputa-se também o significado da democracia. Se ela será apenas o ato de votar a cada quatro anos ou se será vivida no cotidiano, nas decisões da cidade, nos conselhos, nas associações, nas comunidades. Democracia não é apenas procedimento; é prática. É sentir que se faz parte, que se tem voz e que essa voz tem consequência.
Há ainda uma dimensão ética nessa disputa. Organizações que se propõem a transformar a sociedade não podem reproduzir internamente aquilo que dizem combater. Relações autoritárias, machismo, racismo, exploração do trabalho e silenciamento não combinam com discursos de justiça social. A coerência entre discurso e prática é, hoje, uma das maiores disputas em curso.
No fundo, quando perguntamos “o que vale a disputa?”, estamos perguntando:
Vale disputar por uma cidade para poucos ou para muitos?
Vale disputar por políticas que incluam ou que excluam?
Vale disputar por uma juventude vista como problema ou como potência?
Vale disputar por territórios esquecidos ou por territórios valorizados?
A resposta a essas perguntas se constrói no chão da cidade, nas relações, na organização e na capacidade de transformar indignação em ação coletiva.
Talvez o maior desafio do nosso tempo seja justamente esse: reconectar a política com a vida real. Fazer com que ela volte a ser ferramenta de organização, de escuta e de transformação.
O que vale a disputa é o direito de decidir que futuro queremos habitar.