O reencontro

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 20/03/2022
Horário 05:50

Voltamos para a sala de aula na semana que passou. Para ser mais exato foi uma roda de conversa no anfiteatro 2, um ambiente impregnado de muitas histórias e estórias. Defesas de mestrado e doutorado, assembleias e discussões intermináveis, provas de concursos públicos como fui submetido para o título de professor titular da Unesp.

O reencontro começou de forma insegura e frágil. Seria este o início do novo normal sem qualquer ligação com o fim? Sim. A sensação é que 2020 não acabou. Passaram-se crônicas e a saudade se empedrou em frases mal escritas no quadro de giz.  O que estávamos fazendo ali? Qual a maneira correta de recomeçar? E todos tentaram analisar uma sequência de slides sem poesia, mas o cotidiano aflorou e despejou o verbo dentre nós pobres mortais.              

Tal situação me trouxe na mente aquela roda gigante do conto “As margens da alegria” da obra “Primeiras estórias” de Guimarães Rosa. A estória se passa durante uma viagem de um menino com seus tios para Brasília, onde passam alguns dias conhecendo a construção da capital. No decorrer da trama, um conflito intenso e contínuo se transforma no fio condutor. Ao contrário de certos contos em que ações em cima de ações transformam, por um processo linear, a situação em um clima ápice de tensão, a fórmula encontrada por Guimarães Rosa é justamente na homogeneidade deste conflito, como numa grande roda gigante onde o descer e o subir seriam a situação e o momento de transição numa resolução sempre repetitiva.

Eu já tinha esquecido que o ritmo de uma aula ocorre como no exemplo da roda gigante. O movimento da subida refere-se ao mundo psíquico vivido pelas crianças, o tempo mítico, o espiar de nuvens, claridade azul do ar. Instante só, a alegria. O momento da transição e da descida refere-se à ação do estalar dos dedos dos tios, ao mundo adulto e cronológico, o marcar ponto por ponto no mapa a localização da viagem, o comer sanduíches, folhear as revistas. Estabelece-se aí uma relação de realidades paralelas que a todo tempo estão se tangenciando.

Pena que a grande maioria daqueles “meninos” e “meninas” se transformarão em adultos, os denominados cronológicos, do apenas viver a vida. Mas é esta tensão permanente que cria na aula presencial o seu próprio ritmo como na fórmula da roda gigante que leva a estrutura do conto a seu ápice com forte tendência a caminhar para a estrutura poética que se faz notar em “As margens da Alegria”.  Tudo cresce e flui. E uma roda de conversa ainda que tímida vira corpo e habita entre nós.

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