O samba que ficou entre nós

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 26/06/2026
Horário 06:00

O último acorde flutua devagar, como fumaça leve que sobe e se espalha pelo ar. Ana Caram acaba de entoar os versos de “Para um Amor no Recife”, de Paulinho da Viola, e a melodia não se apaga — fica suspensa nas paredes do Bar Epílogo, na Rua Tutóia, como se o próprio lugar quisesse guardá-la entre suas sombras e memórias.
Tocamos juntos há tempo suficiente para saber que não é só técnica: é sintonia que vem da alma. Nosso casamento musical não tem data registrada em papel, mas tem compasso exato, respiração compartilhada e um entendimento que dispensa palavras. Quando ela começa uma frase, já sei onde pousar a nota; quando demora um instante, espero-a com a mesma calma de quem conhece o caminho de cor.
Na parede da minha memória, a imagem permanece viva e nítida: numa mesa do bar, sozinha, está ela — a Mulher Maravilha. Espera-me com paciência tranquila, olhando para fora, onde a noite de São Paulo desenha suas sombras mais suaves e a lua começa a derramar seu brilho prateado sobre telhados e ruas silenciosas. Em breve sairemos no meu velho Fusca azul, onde a bola do câmbio teima em escorregar cada vez que troco as marchas — e nós dois só sorrimos, como quem faz brincadeira com os pequenos encantos da vida. Seguiremos pela madrugada, tendo o céu estrelado como nosso teto aberto, levando com tudo o que a música gravou fundo em nós.
Esse samba carrega uma história que o torna muito mais do que uma simples canção. No início da carreira, Paulinho da Viola viajou ao Recife para seus primeiros shows e foi acolhido pela professora Dedé Aureliano: mulher à frente do seu tempo, de ideias firmes, feminista e engajada nas causas do seu povo, que abriu sua casa e seu coração sem reservas nem medidas. Dali nasceu uma amizade rara, profunda e resistente ao tempo. A letra foi escrita como uma carta enviada de longe — feita de saudade suave, de carinho contido e da certeza serena de que o reencontro sempre chega.
Para mim e para Ana, esses versos se transformaram em nosso hino particular. Basta um olhar e a melodia já toma conta do ar ao nosso redor. Mesmo ao telefone, antes mesmo de dizer “oi”, já deixamos escapar as primeiras frases. E a Mulher Maravilha também gosta de ouvir: quando canto, ela escuta com atenção doce, como se cada palavra contasse não só a história de Paulinho e Dedé, mas também um pedaço da nossa própria — desses laços tecidos de presença, memória e afeto que o tempo nunca desgasta nem apaga.
A noite avança, a lua brilha mais cheia sobre a cidade, e a melodia continua a ressoar suavemente dentro de nós. É então que, baixinho, como uma promessa sussurrada ao vento, os versos se fazem ouvir inteiros:
 
“A razão por que mando um sorriso
e não corro
é que andei levando a vida
quase morto
quero fechar a ferida
quero estancar o sangue
e sepultar bem longe
o que restou
da camisa colorida
que cobria minha dor
meu amor
eu não me esqueço
não se esqueça por favor
que voltarei depressa
tão logo a noite acabe
tão logo esse tempo passe
para beijar você...”
 
Ana seguiu os caminhos que seus sonhos lhe indicaram. Fez carreira internacional, levou nossa música ao Japão e a tantos outros cantos do mundo, dividindo palco com gigantes da arte: Tom Jobim (in memoriam) e o cantor de jazz Al Jarreau (in memoriam). Prudentina de nascimento e de alma, amiga querida e fiel, ela segue levando a vida sempre abraçada a melodias que fazem o coração bater mais leve. A mim, a vida me conduziu por outras estradas, ao lado da Mulher Maravilha, onde encontrei meu próprio compasso.
 
Não é só uma despedida, nem só uma lembrança de saudade: é a certeza de que onde há amor, amizade e memória, a distância nunca separa de verdade. A lua nos acompanha, os passos seguem leves pela madrugada, e esse samba permanece vivo — como uma ponte invisível que liga o que foi, o que é e o que sempre vai morar nos nossos corações.
E o samba de Paulinho continua tocando, suave e eterno, dentro de nós.

O samba que ficou entre nós

Persio Melem Isaac

O último acorde flutua devagar, como fumaça leve que sobe e se espalha pelo ar. Ana Caram acaba de entoar os versos de “Para um Amor no Recife”, de Paulinho da Viola, e a melodia não se apaga — fica suspensa nas paredes do Bar Epílogo, na Rua Tutóia, como se o próprio lugar quisesse guardá-la entre suas sombras e memórias.
Tocamos juntos há tempo suficiente para saber que não é só técnica: é sintonia que vem da alma. Nosso casamento musical não tem data registrada em papel, mas tem compasso exato, respiração compartilhada e um entendimento que dispensa palavras. Quando ela começa uma frase, já sei onde pousar a nota; quando demora um instante, espero-a com a mesma calma de quem conhece o caminho de cor.
Na parede da minha memória, a imagem permanece viva e nítida: numa mesa do bar, sozinha, está ela — a Mulher Maravilha. Espera-me com paciência tranquila, olhando para fora, onde a noite de São Paulo desenha suas sombras mais suaves e a lua começa a derramar seu brilho prateado sobre telhados e ruas silenciosas. Em breve sairemos no meu velho Fusca azul, onde a bola do câmbio teima em escorregar cada vez que troco as marchas — e nós dois só sorrimos, como quem faz brincadeira com os pequenos encantos da vida. Seguiremos pela madrugada, tendo o céu estrelado como nosso teto aberto, levando com tudo o que a música gravou fundo em nós.
Esse samba carrega uma história que o torna muito mais do que uma simples canção. No início da carreira, Paulinho da Viola viajou ao Recife para seus primeiros shows e foi acolhido pela professora Dedé Aureliano: mulher à frente do seu tempo, de ideias firmes, feminista e engajada nas causas do seu povo, que abriu sua casa e seu coração sem reservas nem medidas. Dali nasceu uma amizade rara, profunda e resistente ao tempo. A letra foi escrita como uma carta enviada de longe — feita de saudade suave, de carinho contido e da certeza serena de que o reencontro sempre chega.
Para mim e para Ana, esses versos se transformaram em nosso hino particular. Basta um olhar e a melodia já toma conta do ar ao nosso redor. Mesmo ao telefone, antes mesmo de dizer “oi”, já deixamos escapar as primeiras frases. E a Mulher Maravilha também gosta de ouvir: quando canto, ela escuta com atenção doce, como se cada palavra contasse não só a história de Paulinho e Dedé, mas também um pedaço da nossa própria — desses laços tecidos de presença, memória e afeto que o tempo nunca desgasta nem apaga.
A noite avança, a lua brilha mais cheia sobre a cidade, e a melodia continua a ressoar suavemente dentro de nós. É então que, baixinho, como uma promessa sussurrada ao vento, os versos se fazem ouvir inteiros:
 
“A razão por que mando um sorriso
e não corro
é que andei levando a vida
quase morto
quero fechar a ferida
quero estancar o sangue
e sepultar bem longe
o que restou
da camisa colorida
que cobria minha dor
meu amor
eu não me esqueço
não se esqueça por favor
que voltarei depressa
tão logo a noite acabe
tão logo esse tempo passe
para beijar você...”
 
Ana seguiu os caminhos que seus sonhos lhe indicaram. Fez carreira internacional, levou nossa música ao Japão e a tantos outros cantos do mundo, dividindo palco com gigantes da arte: Tom Jobim (in memoriam) e o cantor de jazz Al Jarreau (in memoriam). Prudentina de nascimento e de alma, amiga querida e fiel, ela segue levando a vida sempre abraçada a melodias que fazem o coração bater mais leve. A mim, a vida me conduziu por outras estradas, ao lado da Mulher Maravilha, onde encontrei meu próprio compasso.
 
Não é só uma despedida, nem só uma lembrança de saudade: é a certeza de que onde há amor, amizade e memória, a distância nunca separa de verdade. A lua nos acompanha, os passos seguem leves pela madrugada, e esse samba permanece vivo — como uma ponte invisível que liga o que foi, o que é e o que sempre vai morar nos nossos corações.
E o samba de Paulinho continua tocando, suave e eterno, dentro de nós.

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