O sábado não era um dia no calendário; era um ritual. Quando os portões do Prudentão se abriam, o mundo lá fora silenciava para que a nossa sinfonia começasse. Vestir aquela camisa era vestir um orgulho costurado pelo afeto: o Mediterrane, nome imponente, charmoso, nascido da mente do amigo Nico, que financiou nosso primeiro uniforme levando o nome de sua empresa de negócios imobiliários. A camisa azul levava o nome de Imoville. Era nosso manto sagrado. Ali, a grama virava palco. E que elenco tínhamos para encenar a vida em forma de futebol!
Na retaguarda, a segurança era lei. O gol tinha dono, o paredão Gazetta, que transformava a trave em fortaleza. Logo à frente, a antítese perfeita da arte de defender: a raça visceral de Lê, o Garrote (in memoriam), dividindo até pensamento, contrastava com a elegância cirúrgica e clássica de Vitor Marcondes. Na lateral esquerda, o elegante e refinado Valmir Macarini. Nas pontas, a velocidade e o drible ganhavam vida nos pés de Nenê Medeiros e José Roberto Marcondes.
E o meio de campo? Ah, o meio de campo era pura magia. Um quarteto que jogava por música: Tiago, Galo, Wilsinho Botoquena (in memoriam) e Marquinho Macarini. Não posso esquecer da raça bruta de Foguinho ou Fogueira, o mordidão de Égua. Eles ditavam o ritmo do coração do time, costurando passes que pareciam poesia, para encontrar, lá na frente, o faro implacável do excepcional Vendramini (in memoriam). Mas todo grande espetáculo precisa de um diretor. E o nosso era o Roy (in memoriam).
Para Roy, o futebol não admitia a cor cinza; o mundo se dividia a ferro e fogo. Ele habitava um universo de linhas nítidas, onde a busca pela vitória exigia o sacrifício de todas as vaidades. Roy tinha asco dos "fazedores de média", esses que preferem a mentira confortável que agrada a todos à verdade incômoda que salva o time. Ele sabia que a falsa modéstia é o pior dos pecados: a hipocrisia fantasiada de virtude. Quando as pessoas evitam o confronto e buscam concordar o tempo todo, ocorre o conformismo, que empobrece a sociedade. No altar de suas convicções, o futebol era uma guerra estética. E na guerra, a simpatia é o primeiro disfarce da covardia.
O Dia dos Dez Elementos
Ficou na memória aquele sábado em que o Roy, desafiando as leis da matemática e do bom mocismo, escalou o time com apenas dez jogadores. O espanto correu o banco.
— E o Mazetti? — questionou Tiago, intrigado.
Roy, com sua sinceridade cortante de quem prefere o sangue do fato à doçura anestésica da mentira, não hesitou. Sabia que Mazetti era amigo, mas o futebol é um tribunal de competência, não um clube de compadrio. Olhou firme e decretou:
— O Mazetti vai atrapalhar.
Duro? Sim. Cruel? Talvez para os ouvidos acostumados à hipocrisia social. Mas Roy não estava ali para colecionar simpatias; estava ali para arrancar a vitória das entranhas do sábado. Ele preferia o peso de ser o vilão autêntico ao vazio de ser o herói diplomático. Para o filósofo Friedrich Nietzsche, a sociedade frequentemente cria uma "moral de rebanho", onde a mediocridade é protegida e a fraqueza é camuflada como "bondade" ou "educação". Roy rejeitava essa moral. E a história deu o veredito: jogamos com dez, corremos por 11 e saímos de campo com a vitória. O comandante estava certo.
Muitos dirão que foi loucura ou frieza entrar com dez e barrar o amigo Mazetti, mas Roy preferiu o risco de passar por "FDP" à mediocridade de fazer média; no altar do futebol raiz, a linha que separa o implacável do gênio é desenhada pela coragem de quem só aceita a vitória.
A profecia contra o futuro gigante
Mas a grande obra-prima da percepção do Roy ainda estava por vir, no confronto contra a seleção amadora da nossa amada aldeia.
O jogo mal havia começado, o suor mal tinha encharcado a camisa, e Roy mexe suas peças no xadrez de chuteiras. Sacou o atacante Nenê Medeiros, que saiu contrariado aos 11 minutos do primeiro tempo, sem entender essa emblemática e arriscada decisão. Aliás, ninguém entendeu. Chamou o Tiago que jogava como volante e deu a instrução tática:
— Vai lá para frente e joga em cima do quarto zagueiro. Ele é lento.
O tal quarto zagueiro era um jovem promissor chamado China — o mesmo que, anos mais tarde, estaria brilhando na final do Brasileirão pelo Vitória da Bahia contra o Palmeiras. Tiago estranhou a ordem. Sair do meio para ser ponta de lança? Parecia loucura. Mas contra os instintos do Roy não se argumentava. Enquanto os outros olhavam o lance, Roy era pragmático e observou como um predador faminto o ponto fraco na defesa do adversário.
O tempo correu e poucos minutos depois, o destino se desenhou. A bola sobrou nos pés do craque Wilsinho Bodoquena no círculo central. Wilsinho não olhava para a bola, olhava para o amanhã. O Tiago Alemão sentiu que nos pés de Wilsinho vinha talento e se posicionou para receber, sentindo o perfume do passe mágico que estava por vir.
O lançamento veio, limpo, desenhado a giz no céu do Prudentão. Com suas passadas largas e imponentes, o Alemão nem precisou ajustar o passo. Embalou um pique que rasgou o gramado, deixando o futuro craque China para trás na pura corrida. O toque na bola teve a precisão de um mestre: gol do Mediterrane!
Na beira do campo, explodindo em catarse, o homem que decifrou o invisível corria de braços abertos. Não havia espaço para a hipocrisia de conter a alegria para "não ofender o adversário". Roy celebrava a soberba legítima do intelecto. O grito ecoou pelo Prudentão e ficou eterno na nossa memória:
— Eu sou gênio! Eu sou gênio!
E quem haveria de duvidar? Recusar o próprio mérito seria mentir, e Roy odiava a mentira. Naquele sábado, sob o sol da nossa aldeia, entre a poesia dos pés de Wilsinho, o gol do Tiago Alemão e a profecia crua de Roy, o Mediterrane não era apenas um time. Era a nossa eternidade.
"A vitória tem muitos pais, mas a derrota é órfã."