O voo do pandeiro: da terra prudentina ao altar do samba

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 23/01/2026
Horário 07:00

Diz-se que o destino de um homem começa no chão onde ele pisa primeiro. Para Roy, esse chão tem o calor de Presidente Prudente, uma terra que ele nunca deixou de carregar no peito, mesmo quando seus pés já desbravavam os mapas do mundo. Roy é o "músico prudentino" por excelência: aquele que voa longe, mas mantém a raiz mergulhada na fonte.
Tudo começou com o silêncio de um aprendizado sagrado. Aos 15 anos, sob a tutela do Maestro Orozimbo, o menino Roy recebeu as chaves de um reino feito de madeira e couro. Estava eu e Roy encostado no "murinho" em frente à nossa casa na Avenida Washington Luiz, 501. O destino foi muito caprichoso. O Maestro Orozimbo estava passando com um pandeiro em uma de suas mãos. Roy perguntou: Maestro como toca esse instrumento? Foi amor à primeira vista. Orozimbo lhe entregou os quatro movimentos rítmicos do pandeiro — uma gramática de sons que, para ele, soou como a mais bela das revelações. Uma paixão repentina, um pacto selado entre a mão do menino e o instrumento que se tornaria seu eterno companheiro de jornada. 
Dali, o mundo ficou pequeno para a sua fome de viver. Roy partiu querendo engolir a vida em goles generosos de vinho, mas sempre acompanhado pela cadência que aprendeu no interior paulista. Ele não era apenas mais um ritmista; era um operário da alegria, um alquimista do platinado.
Sua trajetória é um desfile de glórias. O ritmista prudentino que ganhou o mundo não esqueceu de onde veio nem para onde o coração apontava. O samba, para ele, tem duas casas fundamentais: a malandragem elegante dos Malacos do Tênis, onde o riso e a amizade ditavam o tom, e a majestade azul e branca da Portela. Ver Roy desfilar nas grandes escolas de samba do Rio de Janeiro era ver o encontro do interior com a capital da folia; era ver os quatro mágicos movimentos rítmicos ecoando no asfalto sagrado da Sapucaí.
Roy do Pandeiro transformou o instrumento em sua bandeira. Por onde andou — nas estradas da vida ou nas avenidas de luz — levou o orgulho de sua origem. Ele e o pandeiro foram para o mundo. Seus dedos, limpos e profundos no toque, contam a história de um homem que soube ser cosmopolita sem deixar de ser bicho da terra.
Hoje, quando o pandeiro soa, não é apenas música. É o pulso de uma história que começou aos 15 anos e que hoje brilha nas cores da Portela, na memória dos Malacos e na saudade de Prudente. Roy não apenas toca o pandeiro; ele faz a vida dançar no ritmo da sua própria verdade.
"Menino de olhar atento
Lá nos idos de outrora
A vida parou o tempo
E o destino marcou a hora
Orozimbo, o velho mestre
Com as mãos cheias de luz
Ensinou que o couro vibra
E o ritmo nos conduz.
Foram quatro movimentos
Um segredo revelado
Como quem doma os ventos
Ou um verso bem cantado
Foi amor à primeira vista
Ouro em forma de anel
O menino virou artista
E fez do samba seu céu.
Vai, Roy! Leva o couro pro mundo
Faz a prata do platinado brilhar
Teu toque é limpo, é profundo
É o pulso da vida a pulsar
Roy do Pandeiro, herdeiro da ginga
Onde a mão toca, a alma respinga.
Coração de prudentino
Que a raiz nunca esqueceu
Foi traçando o seu destino
Pelo mundo que escolheu
No Malacos fez escola
Ginga de mestre e irmão
E a Portela, em azul e branco,
Mora no seu coração.
Na Sapucaí, o desfile
É o ápice do seu voo
Não há quem não se perfile
Pro som que o Roy criou
Engolindo a vida em goles
Como quem bebe um bom vinho
Os quatro tempos do mestre
Guiaram o seu caminho.
Quatro tempos, uma história
Um pandeiro, um coração
Roy gravou na memória
O som da sua vocação"..
 

Publicidade

Veja também