Eu amava andar de trem. Sim, trem mesmo, destes ferroviários para valer. Aqueles que serpenteavam por entre os territórios rurais até chegar a um espaço próprio na cidade, onde a composição toda era dona do lugar: a estação ferroviária.
Eu gostava de ir até a estação. Tinha um ar meio forasteiro, uns tipos mal-encarados, mas era o lugar do trem e isso fazia toda diferença. O cheiro era diferente e a robustez dos trilhos, pedras e dos homens ferroviários me fazia viajar em boas histórias.
Não por menos que os trens ocuparam lugar especial em boa parte da minha infância e juventude.
Era pelo trem que minha tia Rose chegava e a gente ficava feliz. Mas era por ele também que ela ia embora e não sei se um dia vou experimentar um sentimento de despedida tão amargo. O apito da partida, a arrancada da máquina em câmera lenta, depois mais rápido, o som que aumentava para depois ir sumindo devagarzinho lá longe, e aí o vazio que ficava em todos nós.
Mas depois eu também viajei muito de trem. Foi na época da universidade. Fiz Jornalismo em Bauru, no campus da Unesp (Universidade Estadual Paulista), e para minha surpresa de calouro, assim que fiz a matrícula descobri que não haveria aulas às sextas-feiras. Nem lembro a razão. Provavelmente porque algum professor naquele semestre estava em licença e não havia substituto.
Bem, garoto do interior que eu era, percebi logo a chance de poder voltar para minha cidade, Junqueirópolis, ainda às quintas-feiras. Claro que eu queria muito porque a cidade grande ainda me apavorava e meus pais haviam dito em alto e bom som que voltar de ônibus, nem pensar. O dinheiro não dava.
Assim, acabando a aula de quinta-feira, eu não pensava duas vezes e ia feliz para o maior entroncamento rodoferroviário da América Latina, que era assim que chamavam a estação de Bauru. Não acho que era não, mas eu mesmo alimentava essa história porque gostava de chegar lá e ver o mundo dos trens.
Inúmeras composições, com locomotivas e vagões, distribuídas em várias linhas, que iam para capital, para o interior, para o Sul do Brasil, para o Centro-Oeste. Iam para todo lugar.
Pagava logo minha passagem e guardava com atenção porque dentro do trem sempre havia um guardinha que “ticava” os bilhetes. Se não tivesse ou perdesse, ia para fora. Como era quinta, quase sempre o trem estava vazio. Encaixava a mochila na parte superior e me acomodava nas poltronas com revestimento de corino ou courvin, porque facilitava a limpeza. Quase 90 graus, tipo avião, mas sem a pompa do avião.
E assim que o trem saía, eu já esperava pelo barulhinho bom: era o som que vinha do carinho de bebidas e comidas. Isso, havia um funcionário da Fepasa, empresa estatal que cuidava do transporte, que vinha lá de trás chacoalhando as garrafas de refrigerante e os pacotes de biscoito. Era a dupla que me mantinha ativo por quase sete horas, o tempo entre Bauru em minha cidade.
Eram muitas paradas porque toda cidade do trajeto da linha férrea tinha sua estação e como eu fazia o horário da tarde para noite, eu me acostumei a ver estas cidades conforme o sol se punha. Mas eu gostava muito da nostalgia do final da tarde para frente, especialmente nas cidades pequenas.
O trem chegava e pouca gente havia na estação. Eu olhava de longe as casas com as luzes acesas e já ia imaginando a cena; “Que que tem hoje de boia, mulher? Linguiça, marido. Do jeito que você gosta. Mas vai se lavar antes”. E as crianças brincavam na varanda e alguns ainda jogavam bola na rua. Antes paravam para ver o trem. Um dos pés na bola, o resto em volta e todos olhando para aquela maravilha passar devagarzinho, devagarzinho até pegar tração e sumir na curva.
Acho que era assim como eu imaginava a vida deles. Mas penso que eles também deviam imaginar a vida de quem estava lá dentro, de quem teve a sorte de um dia ser um passageiro de trem.