Os pescadores de ilusão nos rios da vida... A filosofia do arremesso: pescar o tempo

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 12/06/2026
Horário 07:09

Uma sexta‑feira especial preparou meu coração para esse final de semana. Saí da sauna do Tênis Clube e segui em direção à chácara do querido amigo Dr. José Roberto Marcondes. Todos os anos, ali se repete uma tradição: o churrasco para comemorar a pescaria. Mas dessa vez o encontro tinha um brilho diferente. São quatro décadas de caminhada — 40 anos de pescaria contínua. Uma raridade em nossos dias, onde tudo muda depressa, onde os laços parecem tão frágeis quanto um clique de tela. O Mauricião, com a mestria de sempre, comanda o braseiro, espalhando pelo ar o cheiro que reúne mais que apetite: reúne histórias. Brindamos com uma cachaça especial, derramando um gole no chão em homenagem aos que já não estão entre nós: meus irmãos Teco e Roy, o nosso eterno craque Antonio Carlos Vendramini, Pitte e Pitito.
O ano de 2026 tem se mostrado severo em suas lições, lembrando‑nos a cada passo que a morte não perdoa ninguém, mas o tempo, esse sim, pode ser transformado em memória, em vínculo e em eternidade. E foi então que me lembrei de Ernest Hemingway, para quem a pesca nunca foi apenas um passatempo. Para ele, era uma metáfora viva da existência: uma busca constante por dignidade, coragem e resistência diante das forças da natureza e do próprio destino. Em “O Velho e o Mar”, ele nos ensina uma verdade que atravessa séculos: o ser humano pode ser ferido, pode ser cansado, até parecer vencido pelas circunstâncias — mas nunca derrotado, enquanto mantiver a linha esticada, a alma ereta e a fé no que faz. Ali, entre o aroma da carne assada e o tilintar dos copos, compreendi: a resistência desses queridos amigos não é diferente daquela do velho Santiago. Contra as correntezas da vida, contra as perdas, o luto e as ausências que a morte traz, eles se mantêm firmes como uma fortaleza de afeto. Quarenta anos de uma odisseia fluvial iniciada em 1986 — e os laços continuam atados, fortes como nós bem feitos, desafiando a própria erosão do tempo. 

Os guardiões da proa e a correnteza dos dias
Nessa cartografia de quatro décadas, há âncoras que nunca se soltam. O dono da casa, Dr. José Roberto Marcondes, com seu porte e sua elegância que lembram os grandes personagens do cinema, como "Willian Holden", e o pragmático Michel Buchalla, carregam uma medalha que não se vê, mas todos sentem: são os únicos que jamais faltaram. Faça sol ou tempestade, vento forte ou céu fechado, lá estavam eles, garantindo que a bússola do grupo nunca perdesse o norte. Ao redor dessa dupla de ferro, uma verdadeira constelação de apaixonados se reúne — todos eles, na essência, pescadores de ilusão e de amizade. Homens que entenderam cedo: pescar com respeito à natureza, praticando o sagrado ritual do pesque e solte, é antes de tudo uma lição de humildade e uma profissão de fé. Não se tira mais do que a natureza pode dar; apenas se compartilha o momento, a espera e a beleza do encontro com as águas.
Estão lá: Sérgio Terrin, Antero e Célio, o Goiano; Demétrio Zacharias, Valmir Macarini e Gabriel Siqueira; Duca, Decinho Curral e Ricardo Tahan; Turquinho, César, o “Veterano”, e Diorla; e o lendário Dr. Luiz Augusto Siqueira, o eterno “Doutor”. 
A cachaça derramada no solo não foi um adeus, mas uma ponte invisível. Meus irmãos e amigos não abandonaram a pescaria — apenas pegaram o barco mais cedo e navegaram para a outra margem, onde as águas são sempre mansas e o céu tem a cor do mais doce dos doces. Eles continuam vivos em cada história contada, em cada risada antiga, em cada silêncio que todos compreendem. A memória, descobrimos, é como uma linha de multifilamento: não se rompe com o tempo.

O espelho da existência nas águas
 Se a vida e a pesca compartilham a mesma linguagem, o arremesso da vara é a nossa esperança lançada ao amanhã. Ao olhar para a superfície calma do rio, vemos mais que água: vemos o reflexo do nosso próprio caminho. Quando a linha estica e sentimos a força do peixe, é o instante da vitória, da superação. Quando o anzol volta vazio ou a linha se enrosca em galhos escondidos, é a lição: a sabedoria do pescador não está em reclamar da correnteza, mas em recolher com calma, refazer os nós com as mãos calejadas pela experiência e arremessar novamente. Essa resiliência é o que faz desses homens verdadeiros mestres da vida. Num mundo onde tudo é rápido, descartável e esquecido em segundos, eles escolheram a lentidão sagrada do rio. Escolheram o cultivo diário da amizade, que leva anos para crescer e uma vida inteira para se fortalecer.

A metafísica da saudade
Parabéns, amigos e irmãos. Diante da severidade dos dias e da certeza de que a morte chega para todos, vocês provaram que existe algo que ela não consegue levar: o afeto compartilhado, a história vivida e a memória construída.
Como cronista amador que sou, sinto às vezes o peso do mistério da passagem do tempo. Quando a data chegar e o grupo se reunir novamente para seguir rumo às águas, restará em mim uma sensação de espaço vazio. Mas a filosofia me ensina: esse vazio não é de ausência, é o espaço nobre da saudade. Sentir saudade é a prova mais certa de que somos ricos de afeto. É confirmar que algo grande, poético e eterno ficou gravado em nós. E, afinal, o peixe sempre foi apenas o pretexto que o destino usou. O que vocês realmente pescaram nesses 40 anos foi algo muito maior: uma amizade capaz de lançar âncoras no peito uns dos outros, resistindo a todas as correntezas do esquecimento. Que venham mais anos, mais histórias, mais arremessos. Vamos, rapaziada, preparar as tralhas! A vida nos espera, e ainda há muito para pescar — ilusões, memórias, e um pedacinho do infinito. Como bem nos lembrou Hemingway nas páginas de sua obra-prima, "o homem não foi feito para a derrota; um homem pode ser destruído, mas não derrotado". O destino severo pode nos tirar os irmãos e os amigos do lado esquerdo do barco, mas nunca será capaz de vergar a dignidade daqueles que aprenderam a amar o rio e a pescar a vida inteira juntos.

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