Os sonhos

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 28/06/2020
Horário 07:30

Os sonhos aguçam a curiosidade há muito tempo. Os gregos já dedicavam uma atenção especial para as experiências da imaginação durante o período do sono. Diz a lenda que Hypnus, o Deus do Sono, durante as suas longas caminhadas pelos inúmeros mundos que visitava, conheceu Endemyon e desta união nasceu Morpheus, o Deus dos Sonhos. De acordo com a mitologia grega, com suas enormes asas e metamorfo, Morpheu possuía enorme capacidade de deslocar-se velozmente para todos os cantos do mundo e transformar-se em diversas coisas conforme os sonhos das pessoas. Eu pensei em Morpheus quando comecei a escrever essa crônica que você está lendo nesse momento. Explico.

Você pode acreditar. Se não fosse a minha mãe acompanhar os meus deveres escolares, eu não teria passado do 1º para o 2º ano da escola primária... Eu tinha dificuldade de ler e de escrever! Foi ela que, enquanto fazia o almoço, exigia a minha leitura da lição do dia em voz alta. Antes de dormir, ela também lia e contava histórias. Acredito que essa vivência familiar de leituras marcou profundamente a minha vida. Eu não tinha percebido isso antes de assumir o compromisso semanal de escrever crônicas para o jornal de domingo.

Preciso lhe contar um segredo: tenho percebido estranhamente a presença da minha mãe (que vive lá em São Paulo) e dos meus supostos leitores no texto que discorro na tela do computador, como se fosse um sonho. Tal situação me faz pensar que a escrita cria uma certa cumplicidade, inicialmente muito difusa na minha cabeça e que, aos poucos, vai ganhando formas de gente. Afinal, a escrita é uma espécie de “leitura mental”.

Quando escrevo o texto, eu o recrio na minha mente, concordando, discordando, acrescentando, questionando as ideias do meu leitor onírico. Por sua vez, ao ler o meu texto, você está construindo a sua própria “leitura do mundo”. Daí eu e você nos aproximamos da fronteira entre nossos pontos de vista e uma certa apropriação artística da realidade. É Janson que nos ensina que a obra de arte é mais do que representação, é também o resultado da busca incessante de uma linguagem que dê conta de representar a realidade para as pessoas que nela estão inseridas. Ela amplia, assim, a capacidade de percepção do mundo, possibilitando que as pessoas se identifiquem ou não com esta representação, que se recoloquem ou não no tempo em que vivem, entendendo melhor ou não como o seu cotidiano é determinado. Continuemos a sonhar juntos. 

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