Pepe lamenta morte de sua nadadora Mariana

“A palavra que me vem em mente neste momento é de ‘impotência’, porque nos perguntamos o que fazer diante dessa doença [Covid]?” 

Esportes - OSLAINE SILVA

Data 20/12/2020
Horário 09:31
Cedida: Mariana (primeira em pé à esq.) exibe feliz uma de suas medalhas
Cedida: Mariana (primeira em pé à esq.) exibe feliz uma de suas medalhas

Ainda ontem à noite, a reportagem deste jornal conseguiu falar com o técnico de natação Elvancir Pereira do Nascimento, o Pepe, que estava na estrada retornando do Campeonato Paulista, em Bauru com a sua equipe do Colégio Criarte/Pruden-Aço/Apan/Semepp de Presidente Prudente,  pela partida tão repentina de Mariana Franklin Ferreira Silva, uma de suas atletas, que teve sua vida ceifada pela Covid-19, causada pelo novo coronavírus. Ela será sepultada às 10h de hoje. “A palavra que me vem em mente neste momento é de ‘impotência’, porque nos perguntamos o que fazer diante dessa doença [Covid]? Graças a Deus nenhum dos demais atletas apresentou qualquer sintoma de gripe, de Covid, nada neste período. Então acredita-se que a Mariana não foi infectada no ambiente da natação, que segue à risca os protocolos sanitários. Mas em qualquer outro, infelizmente”, comenta consternado o professor ali no ônibus com os demais alunos amigos de Mariana.

Assim como Erica Bernardes da Silva Chilaule Langa, 41 anos, tia de Mariana e mãe de João Leonardo Silva Campos, também nadador da Semepp, Pepe narra que após passar mal no treino, em 15 de novembro, a atleta já foi afastada das atividades da equipe.  A mãe da menina a levou ao médico no dia seguinte quando ela foi diagnosticada com suspeita de Covid. Logo, todos os protocolos, como o de isolamento total por 14 dias, foram seguidos e ela reagiu bem. No dia 26 saiu o resultado do teste de que ela havia tido a doença “Ela só retornou aos treinamentos, no dia 1º de dezembro, depois do médico sinalizar que ela já estava bem e poderia seguir sua vida normal. Além da autorização de sua mãe [um protocolo que seguimos normalmente]. E na semana passada ela competiu com os demais no Campeonato Nacional de Natação, no Parque Aquático do Complexo Rebouças, em Santos., em Santos. O último da nossa guerreirinha que disputou os 50, 100 e 200 m [metros] livre, e seu primo, o João Leonardo 100 peito, 200 medley, 200 peito e 400 medley! [pausa]”, expõe Pepe com a voz trêmula.

No sábado (12), dia seguinte a volta dessa competição, em Santos (SP), João Leonardo disse ao técnico que Mariana não estava muito bem e por isso não foi ao treino. O mesmo se repetiu no domingo por ela estar sentindo dores no corpo e de cabeça. A mãe então conversou com ele e disse que Mariana não embarcaria com a turma para Bauru, na terça. Mas, no dia seguinte se estivesse bem iria com uma das mães. Porpem isso não foi possível.

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“Não tem nem palavra para explicar qual o clima que está dentro desse ônibus. Recebi a notícia à tarde [ontem] e como ainda faltava a Camila Kanegaki nadar, conversei com as mães e decidimos não contar aos atletas. Seguimos torcendo, com aquele sorriso forçado. A vontade de chorar vinha, a gente saia das arquibancadas e ia para longe dos meninos. E quando a Camila terminou suas provas pedi à Regina que ligasse para Erica, para que ela desse a triste notícia ao filho. Foi desolador, mas pedimos a ele que segurasse a emoção e que depois do jantar contaríamos a todos. Mas, com a internet... a caminho do restaurante alguém gritou no ônibus: ‘meu Deus, a Mariana morreu!’... Imagine o que foi esse momento”, conta Pepe com a voz embargada. “Foi horrível! Horrível”.

Obedecendo as regras, seguindo protocolos

Antes da viagem a Santos Pepe havia detalhado à reportagem sobre a segurança da competição e as demais federadas de natação.  Proibida a presença de público. Obrigatório o uso de máscaras por todos. Não é permitido alimentação e hidratação em qualquer lugar. Para tanto, existe um espaço separado destinado a essas necessidades. O aquecimento que antes era feito com todas as equipes juntas foi em três momentos de meia hora para cada, separadamente. 

Os cartões de nado que antes eram entregues pelos nadadores aos árbitros também mudaram a forma. Agora ficam direto com os árbitros. O atleta chegou, bateu na placa, já sai. No balizamento também só vão os atletas que competirão àquela prova. O número de nadadores é limitado para entrar nos vestiários. Enfim, todos os protocolos de saneamento referentes à Covid-19 estão sendo rigorosamente cumpridos em todas as competições, desde que retornaram com a autorização do Plano São Paulo.
“Fizemos tudo que tem sido orientado. Tudo. Mas rumores já começaram, ontem mesmo sobre a Mariana ter sido infectada na piscina... Eu jamais colocaria um aluno meu em risco. Antes de técnico sou pai também e, inclusive, meu filho está entre eles. Infelizmente... eu não sei nem o que dizer mais. Peço a Deus que a cura para essa doença venha logo porque não sabemos mais o que fazer”, lamenta dolorosamente o treinador.

 

A CAMINHO DO RESTAURANTE ALGUÉM GRITOU NO ÔNIBUS: ‘MEU DEUS, A MARIANA MORREU!’... IMAGINE O QUE FOI ESSE MOMENTO. FOI HORRÍVEL! HORRÍVEL”

Pepe

Foto: Cedida

 

Fotos: Cedidas

Momentos de Mariana com o professor e seus amigos que a carregarão em seus corações

 

 

 

 

 

 

 

Fotos: Cedidas - Desde os 7 aninhos Mariana já era uma peixinha!

 

 

Foto: Cedida - Mariana, os amigos todos com rostinhos ainda de "pitiquinhos", e o professor Pepe!

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