Por que escrevo?

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 22/03/2026
Horário 05:00

Não tenho dúvidas de que a abertura mais impactante dos romances que já li seja a do “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Naquela primeira página, ao dedicar a obra “ao verme que primeiro roeu as frias carnes”  do seu cadaver, Machado de Assis autodenomina-se um "defunto autor" (ou autor-defunto) com a liberdade total para ironizar a sua própria vida. Pensei naquela experiência de leitura inesquecível quando me percebi observando a minha propria escrita. E, ao fazer isso, percebi que havia dois: aquele que vive e aquele que narra. 
O primeiro caminha distraído por uma praça, sente o calor da tarde, escuta um fragmento de conversa, repara numa árvore que insiste em crescer torta. Presença de ruas, casas de madeira ou de barro, rios, cidades e paisagens como corpos ativos. Forte presença de imagens: luzes e sombras, sons e texturas. A estrada como forma de pensamento. 
O segundo recolhe esses vestígios e tenta organizá-los em palavras. A geografia como denúncia silenciosa, como se fosse totalmente possível dar forma ao que sempre escapa — um olhar, um intervalo, um suspiro. Uma geografia narrada em primeira pessoa, onde o território é vivido como corpo, memória e conflito.
Talvez escrever seja uma forma de não deixar que o mundo passe em silêncio. Talvez seja um modo de resistir à pressa que transforma tudo em superfície. Ou talvez, escrever seja uma tentativa de permanecer — de deixar um rastro, ainda que mínimo, nesse território instável que é o tempo. Sair de si para se ver, e ao se ver, já não ser exatamente o mesmo. Afinal, não há coincidência perfeita entre aquele que vive e aquele que aparece no texto. Há um geógrafo que tenta nomear o mundo, mas também um cronista que prefere deixar que as palavras caminhem sem destino rígido, como quem se perde de propósito. E, no meio deste caminho, surge o texto — imperfeito, mas vivo.
De fato, nunca escrevi exatamente sobre mim. Escrevo sobre encontros: entre corpo e espaço, entre memória e presente, entre silêncio e palavra. Escrevo para o eu se perder um pouco de si. E, nesse gesto, encontrar alguma coisa que ainda não tinha nome. Sim. O texto do papel é sempre uma construção: um pouco mais organizado, um pouco mais sensível, às vezes mais solitário do que o real. Não uma verdade factual, mas uma verdade de experiência.
 

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