Por que você come mais do que precisa, mesmo sem perceber?

OPINIÃO - Osmar Marchioto Jr.

Data 07/01/2026
Horário 04:30

Você já terminou um pacote inteiro de biscoitos sem perceber? Já se viu repetindo o prato, mesmo sem fome, só porque a comida estava ali, ao alcance? Isso acontece com mais frequência do que gostaríamos. E não por falta de disciplina. A verdade é que, quando se trata de comida, nossas escolhas estão longe de ser tão racionais quanto pensamos.
Pesquisadores como Brian Wansink e Jeffery Sobal mostraram, em um estudo já clássico de 2005, que o ambiente ao nosso redor tem um papel enorme nas decisões alimentares. De forma sutil, quase imperceptível, ele nos conduz como um cenário que dita a próxima cena. Achamos que estamos no controle. No entanto, muitas vezes somos apenas parte do script.
O cérebro gosta de economizar energia. Em vez de avaliar cada decisão a fundo, ele responde a estímulos externos, funcionando no piloto automático. Com isso, o ambiente assume o comando. Ele dita a quantidade, o ritmo e até a qualidade do que comemos, mesmo sem que percebamos.
Esses estímulos podem ser agrupados em três grandes grupos. O primeiro é o ambiente físico. Elementos como iluminação, sons, temperatura, tamanho dos pratos e formato dos utensílios atuam como influenciadores. Um prato grande, por exemplo, induz a servir porções maiores, mesmo que a fome já tenha passado. Comemos mais, sem nem notar.
O segundo grupo envolve o ambiente social. A presença de outras pessoas modifica o comportamento alimentar. Em um jantar com amigos, ficamos mais tempo à mesa, comemos em um ritmo diferente e, frequentemente, ingerimos mais do que faríamos sozinhos. O contexto coletivo favorece o prolongamento da refeição, e isso tem impacto no quanto comemos.
Por fim, o ambiente de consumo. Aqui entram elementos como a apresentação do prato, o nome usado no cardápio, a música de fundo, a cor da embalagem. Um alimento servido em uma louça refinada tende a parecer mais saboroso. Uma música suave em um restaurante pode nos fazer comer devagar e por mais tempo.
Esses fatores moldam comportamentos que muitas vezes atribuímos apenas à falta de autocontrole. Mas não se trata de uma falha individual. Trata-se de um sistema operando de maneira discreta, ao nosso redor, influenciando nossas decisões.
Ao entender esse mecanismo, podemos reposicionar as peças. Em vez de confiar apenas em força de vontade, podemos redesenhar o cenário. Pratos menores, frutas à vista, doces fora do campo visual, ambientes de refeição livres de telas e distrações. Pequenas mudanças no entorno produzem grandes mudanças no comportamento.
Essa abordagem tem outra vantagem: reduz a culpa. Comer não é só biologia. É contexto, é rotina, é cultura. Quando reconhecemos isso, mudamos de postura. Passamos a agir com mais consciência e menos julgamento.
Reorganizar o ambiente é assumir o volante da própria alimentação. É decidir, de forma ativa, quem está no comando. Porque, no fim das contas, comer bem não é uma questão de controle rígido, mas de escolhas mais inteligentes, feitas em cenários que trabalham a nosso favor.
 

Publicidade

Veja também