Por uma ontologia dialética do corpo 

OPINIÃO - Leonardo Delatorre Leite

Data 04/02/2026
Horário 05:00

Algo que tem ocupado minha mente nos últimos dias reside na concepção hegeliana de negação determinada. Embora eu não seja um estudioso nem um leitor assíduo de Hegel, essa ideia voltou à tona em minhas reflexões por meio da recente leitura de “Fausto”, de Johann Goethe. Não é do meu intuito aqui explicar a obra em si, mas apenas valer-me da tese ali presente segundo a qual a negação pode ser produtiva. Gostaria ainda de transportá-la para o campo da atividade física, discorrendo não como treinador ou médico, mas como atleta amador.
Uma postura que sempre me incomodou na medicina clínica tradicional reside na aversão a práticas esportivas mais intensas, sobretudo em razão de eventuais lesões e patologias. Creio que se trate, de início, de um receio válido, mas perigoso a longo prazo. Perigoso porque geralmente vem acompanhado de um discurso carregado de fatalismo, como se muitas pessoas estivessem inaptas a práticas esportivas mais intensas em razão de contingências como a idade, patologias passadas, entre outras. Por isso, os médicos em questão geralmente recomendam caminhadas curtas, mobilidades leves, práticas genéricas e seguras para todos. Sendo assim, trata-se de algo mais próximo de uma profilaxia mínima. Portanto, a medicina clínica tradicional opera com uma certa ontologia do corpo, considerando-o como algo a ser mantido dentro de determinados parâmetros, isto é, como um objeto a ser estabilizado.
Por outro lado, penso que a medicina esportiva, ou até mesmo a fisioterapia do esporte, opera segundo uma outra lógica, concebendo o corpo como dialético, isto é, como algo que se realiza no movimento, o qual é compreendido, em última análise, como condição do real. O corpo não se efetiva na estabilidade, mas nas próprias nuances e etapas do processo. Nesse sentido, o médico ou o fisioterapeuta do esporte encara o organismo como algo que se descobre apenas sob esforço e carga, isto é, que se manifesta mais claramente no limiar e só progride ao percorrer e superar a negação, no caso específico, a fadiga ou a microlesão.
Sob essa perspectiva, a lesão é atravessada por uma tensão produtiva, correspondendo ao exato instante em que o corpo sinaliza e expressa um desequilíbrio; mas, simultaneamente, emerge a viabilidade de uma profunda reorganização que aponta para algo superior. Dito de outro modo, na medicina esportiva, a fadiga não é vista como algo puramente maléfico ou prejudicial, mas como uma linguagem eminentemente adaptativa. A dor é um signo, podendo indicar um crescimento em andamento, e as microlesões figuram como condições da hipertrofia. A negação não se reduz a uma mera destruição — a uma patologia estarrecedora e deletéria —, mas envolve um momento produtivo do processo.
Em “Fausto”, esse mecanismo dialético aparece de maneira paradigmática na figura do demônio Mefistófeles, o qual se apresenta como “uma parte daquela força que sempre deseja o mal e sempre produz o bem”. Em suma, ele é um instrumento dialético, uma tensão produtiva. No fluxo geral das coisas, o mal pode desembocar em um bem maior. Em nossas vidas pessoais, é comum afirmarmos que determinado sofrimento contribuiu para que crescêssemos como indivíduos melhores. Creio que isso seja a negação determinada. Não se pode conceber a verdade sem contradição, tensão, negatividade e superação. Mesmo quando caímos, o erro pode abrir possibilidades. O movimento é preferível à estagnação. Isso vale também para a atividade física.
Não estou com isso querendo sustentar uma ruptura com a medicina clínica tradicional, mas apenas sustentar e engrandecer a especificidade de uma área médica em crescimento e que pode vir muito a contribuir para a saúde. Além disso, ao exortar uma vida que se realiza no movimento, não pretendo dizer que a prática esportiva prescinde de acompanhamento. Pelo contrário, é necessária uma atenção às condições e contingências próprias de cada atleta, o respeito à individualidade biológica e a observação das regras da periodização do treinamento. Certamente, mesmo com todas as cautelas, o risco ainda persiste. No entanto, enfrentar esse risco faz parte do processo de viver de modo pleno. Aceitar a estagnação é amputar o que você pode vir a ser e suprimir suas potencialidades e aptidões. 
Em suma, viver com plenitude e intensidade é sempre suplantar um limite anterior. A negatividade pode ser produtiva e não precisa ser uma condenação definitiva e peremptória. Há algo de belo em conceber o movimento como condição do real. “Fausto”, apesar das consequências trágicas do pacto que realizou com o demônio Mefistófeles, não foi condenado e, portanto, sua alma foi salva. Foi salvo não apesar de sua inquietação, mas em razão dela. Ele não se contentava com sua situação atual e permaneceu em movimento. Continuemos, portanto, enfrentando e superando as negatividades, tensões e contradições. Nesse processo, podemos contribuir para o florescimento de algo grandioso.


 

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