Preâmbulos

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 25/04/2021
Horário 06:00

Outro dia me perguntaram como se dá o meu processo de escrita das crônicas de domingo. Confesso que não tenho me pautado por nenhum procedimento rígido. Começo de forma insegura e frágil. Qual a finalidade? Qual a maneira correta? E procuro me distanciar dos temas mais corriqueiros, uma vez que a pandemia nos impõe, com frequência, tratar da dura vida dos brasileiros. Afinal, nos ronda a fome, a morte de amigos e familiares, a crise econômica, a melancolia...
Tem dia que sinto necessidade de me colocar mais distante dessas situações difíceis e ameaçadoras. A crônica, gênero fronteiriço entre o jornal e a literatura, me autoriza a fazer isso. Daí passam-me na cabeça contos, poesias, crônicas... sem qualquer ligação entre si. Me convido para o devaneio. É o reencontro com minhas leituras prediletas.
Hoje me deparei com Guimarães Rosa, especialmente o seu conto “As margens da alegria”, publicado no livro “Primeiras estórias”. A estória se passa durante uma viagem de um menino com seus tios para Brasília, onde ficam alguns dias conhecendo a construção da capital. No decorrer da trama, um conflito intenso e contínuo se transforma no fio condutor. Ao contrário de certos contos nos quais o encadeamento das ações se transforma linearmente em um clima ápice de tensão, a fórmula encontrada por Guimarães Rosa é justamente a homogeneidade deste conflito representado pelo descer e subir de uma roda gigante, numa resolução sempre repetitiva. A ação de estalar os dedos dos tios, a marcação da viagem ponto por ponto no mapa, o comer sanduíches e folhear revistas. Tudo isso é contado pela criança que nos mostra uma relação de realidades paralelas se tangenciando a todo instante, chocando com a negligência do adulto que toca a vida despercebido. “O menino tinha tudo de uma vez, e nada, ante a mente” E espiava “as nuvens de amontoada amabilidade, o azul de só ar, aquela claridade à larga”.
Essa fórmula da roda gigante que leva o conto a caminhar para a estrutura poética é incrível, criando o seu próprio ritmo e figuras de linguagem, utilizando rimas e a musicalidade do som das palavras. Daí tudo cresce e flui. E a redação vira corpo e habita entre nós! Salve nossos artistas, músicos, poetas! Fantasia e realidade circundantes. Pensamento crítico e reflexivo dos leitores. E sinto novamente o oxigênio revigorado em meus pulmões. É a vida que segue.

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