Profissão: marido de aluguel

Na reportagem, três histórias diferentes: um profissional que viu o telefone “emudecer”, outro que registrou queda de arrecadação, e um que viu na manutenção doméstica a oportunidade de que precisava

PRUDENTE - MARCO VINICIUS ROPELLI

Data 12/07/2020
Horário 15:15
Cedida - Celso encontrou na profissão “marido de aluguel” a oportunidade que precisava na quarentena Foto: Cedida - Celso encontrou na profissão “marido de aluguel” a oportunidade que precisava na quarentena

Uma dúvida pertinente nos dias frios da pandemia: se queimar a resistência do chuveiro, prefere-se tomar banho frio ou chamar um eletricista para dentro de casa? A resposta desta pergunta é um dos motivos pelos quais o trabalho dos maridos de aluguel – profissionais que realizam todo tipo de reparo doméstico – tem sofrido mudanças desde que o novo coronavírus começou a se espalhar pelo Estado e país. 
Por um lado, o aposentado, que atua como marido de aluguel, Emílio Delvecchio, 67 anos, afirma que viu seu telefone “emudecer” desde o início da quarenta, restando poucos e esporádicos serviços. “90% das pessoas estão preferindo ficar sem reparo”, ressalta Emílio. Para ele, tal situação tem relação com o grande temor ocasionado pela Covid-19. Em contrapartida, como profissional, ele garante utilizar sempre dos protocolos de segurança, como máscara e álcool em gel.
Para complicar a situação, o filho de Emílio, que trabalhava em um bar da cidade, e utilizava o salário para complementar a renda doméstica, também ficou sem o trabalho durante a quarentena. “Acho que é preciso entender que o vírus é perigoso, mas o colapso financeiro é até pior”, considera. 

Renda caiu

Já o marido de aluguel, Carlos Roberto da Silva, proprietário da empresa Help Multisserviços, diz ter visto a renda com os reparos cair de 30% a 40% desde março por dois motivos: o primeiro, segundo ele, é a queda das condições financeiras das famílias, tendo em vista as dificuldades que a pandemia causou a todos; o segundo é, justamente, a restrição de contato com pessoas “estranhas” pelo temor à doença.
“Quando surgem trabalhos, imediatamente as pessoas cobram o uso da máscara, do álcool em gel 70%”, destaca. Além disso, ele afirma que nas condições atuais, muitas vezes acabam dando descontos e facilitações ao cliente, de modo a ajudar. 

QUANDO SURGEM TRABALHOS, IMEDIATAMENTE AS PESSOAS COBRAM O USO DA MÁSCARA, DO ÁLCOOL EM GEL 70%
Carlos Roberto da Silva


“No começo de ano, o serviço mais comum que realizo é o de mudanças, montagem de móveis, colocação de quadros e cortinas; no fim do ano, tempo do calor, surgem muitas instalações de ventilador de teto. Já no tempo do frio, o que mais tem é conserto de resistência de chuveiro, de válvula de descarga...”, conta. Entre todos, o conserto do chuveiro (lembrando: estamos no inverno) aparece entre os mais urgentes. Carlos garante que os serviços que não são emergenciais estão sendo deixados pelos clientes para outro momento, mas os de urgência não podem e não costumam esperar. 

Reparos como oportunidade

E o terceiro lado da história é contado por Celso Fortes Barbosa. Ele, que até antes da pandemia trabalhava como frentista, e se viu durante a quarentena necessitado de um afazer que lhe garantisse renda, encontrou na atividade de marido de aluguel uma saída vantajosa. “É melhor pouco que nada”, ele fala.
Celso admite que sua renda doméstica, desde março, apresentou uma queda considerável, até porque ele é um dos que acreditam que “tem gente tomando banho em chuveiro frio, com medo de chamar o eletricista”. Mas é entre aqueles que não dispensam um relaxante banho quente, que Celso garante o pão de cada dia. 
Em busca de oportunidade, antes de ingressar de vez nas manutenções domésticas, ele trabalhou de servente de pedreiro, e agora, aos fins de semana, complementando seu salário mensal, é auxiliar de cozinha. “O objetivo é sobreviver na medida do possível”, enfatiza. 

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