Régulo grande

António Montenegro Fiúza

CRÔNICA - António Montenegro Fiúza

Data 25/11/2020
Horário 06:00

Megama régulo grande
anda por cima do tempo
tem longas palavras duras
que lança por muita gente

seus gados pastam por longe
ao lugar onde o sol desce
conta por muitas machambas
seus filhos suas mulheres (...)

Megama é régulo grande
de todo o mato ao redor
Glória de Sant’Anna, Amaranto, 1988

Liderança e dignidade, retidão de caráter, assim se move o régulo,  homi grandi  na sua tribo; ele é rei e juiz, dono da verdade e do conhecimento; julga entre os justos, o que é justiça e o que é crime; defende a moral, os bons costumes, a honra da aldeia e dos seus; ele é juiz. É juiz e rei!
Na Guiné-Bissau, em Moçambique e mesmo em Timor - Leste,  em meio ao riquíssimo mosaico humano e cultural, aparece esta figura idónea e incontornável: a do régulo. Toda a tribo tem (pelo menos) um, e é graças a ele que se mantém a ordem. Com os pés fincados no passado e os olhos no futuro, este homem reparte sabedoria, conta histórias e lendas, é um pedagogo. Um pedagogo e um rei!
Vai à frente das suas tropas, comanda-as no campo de batalha; cria estratégicas e concretiza-as, incita e motiva; convoca ao campo de batalha e dela manda retirar; ele é general! O régulo é general e rei!
O pobre dicionário define-o como pequeno rei, não consegue capturar-lhe a essência e a profusa existência e a opulência da sua figura. É juiz, pedagogo, general e rei, homem reverenciado pelos seus pares, por toda a tribo e pelas vizinhas. Como se definiria o ancião, que senta-se à sombra de uma árvore e que ensina aos mais novos, julga entre os mais velhos e lidera, impávido e reto, o destino do seu povo?
Em Química, chama-se régulo a parte mais pura, mais fixa e mais pesada de um metal ou mineral; etimologicamente, tem a mesma raiz que régua e que rei, e não disso é por acaso. Pelas tribos, sem tradição da escrita, é o régulo que se impõe, que regula, que guia e dita o norte a seguir, que preserva a memória do passado: conquistas, derrotas e aprendizagens. No passado era assim, no presente ainda o é, mas quem nos falará do futuro? Quem serão os próximos régulos? Quem ditará, com honra e retidão, quais os passos a seguir, o que é certo e o que é errado?
Alguns acreditam que a tarefa será herdada pelos líderes políticos, mas disso duvido! Porque o régulo não é apenas um líder político, ele é rei. É juiz, pedagogo, general e rei. É memória e tradição.


 

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