Sobre jornalismo, Robinho e hipócritas

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 20/10/2020
Horário 06:37

Não demorou muito para que o jogador Robinho, condenado por estupro na Itália, colocasse a culpa de parte do inferno em que se meteu na imprensa e de forma mais direta na Rede Globo.
Esta tática, muito comum hoje em dia, chama-se “cortina de fumaça” e é usada para desviar a atenção do erro maior, instigando e chamando apoio de semelhantes para daí, em pouco tempo, o crime ficar de lado e uma acusação totalmente descabida e falsa tomar lugar nos grupos sociais.
A “cortina de fumaça” também é ferramenta comum dos hipócritas, pessoas viciadas em se mostrar de uma forma, mas ter atitudes bem diferentes na realidade. A hipocrisia é um fingimento que tomou conta de muitos espaços sociais. Hipócritas se sentem muito bem ao sentar em cima dos próprios erros para discursar purezas.
Posso falar bem sobre isso porque, primeiro, sou um ser humano e também tenho lá minhas hipocrisias. Mas depois, porque também sou profissional da imprensa, uma instituição normalmente atacada pelos falsos moralistas. Mais que isso, alguns ainda atuam covardemente sem distinguir nomes, cargos e veículos, o que sem dúvida atinge os maus jornalistas, mas também a uma quantidade imensa de profissionais corretos.
A estes hipócritas, e somente a eles, tenho algumas palavras a dizer:
•    Eu não vou até o seu emprego te acusar, falsamente, de ser um mau empregado porque faz corpo mole, forja atestados falsos, enrola para concluir uma tarefa e na primeira oportunidade fala mal de quem paga teu salário;
•    Eu não vou até a sua empresa te acusar, falsamente, de desvio de impostos, de explorar trabalhadores, de lucrar na crise e não pensar em retorno social, de achar que só você é bom por gerar uma meia dúzia de empregos; 
•    Eu não vou até sua casa te acusar, falsamente, de roubo de TV a cabo ou de energia, por você ignorar seus filhos, por terceirizar a educação deles quase 100% do tempo, por beber mais do que o necessário, por cheirar uma fileira ou fumar um baseadinho para “desestressar”;
•    Eu não vou te acusar, falsamente, por pedir o fechamento do Congresso e do STF sem sequer ter a noção de que isso é um crime previsto em lei, 
•    Eu não vou te acusar, falsamente, por pedir, todo protegido dentro do seu carro, o fim de um isolamento social já que para você tudo bem, o plano de saúde talvez te deixe protegido e a cloroquina é o remédio mais milagroso de todos os tempos;
•    Eu não vou te acusar, falsamente, de ser um lixo de pessoa, mesmo sabendo que dentro de sua cabeça passam as mais perversas situações, de pensamentos pedófilos a tentações racistas, homofóbicas e sexuais, por você assistir pornografia o dia todo no WhatsApp e depois exigir um sexo deplorável com sua esposa; 
•    Eu não vou te acusar, falsamente, de “passar o pano” em um crime hediondo, apesar da condenação, e de aderir à tática de politizar um caso que deveria ser tratado no tribunal penal e não no tribunal midiático das redes sociais. 
Por isso tudo, pelo reconhecimento da minha hipocrisia e por todo constrangimento que eu, como jornalista, sinto quando nos ofendem publicamente e de forma generalizada, peço aos hipócritas enquadrados nas situações acima que deixem os profissionais da imprensa trabalharem em paz.Vocês não são melhores do que eles.
 

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