Também fui driblado por Pelé 

OPINIÃO - Cristiano Machado

Data 23/10/2020
Horário 06:43

Santista que sou (de um) e não três corações, mas de nascimento e até no nome, já tive a rara chance de estar com Pelé, o atleta do século, o maior de todos que - junto com outros mágicos da bola como Gilmar, Lima, Mauro, Dalmo e Calvet; Dorval, Mengálvio, Coutinho e Pepe - me fez orgulhar de ter nascido com quatro estrelas douradas no peito: duas da Libertadores e duas do Mundial de Clubes. 
Porém, como fez com tantos marcadores implacáveis, fui facilmente driblado pelo rei do futebol que nesta sexta-feira completa 80 anos. Ingenuidade minha pensar que surpreenderia aquele que foi o jogador de futebol que encantou o mundo, que por sua habilidade, inteligência e perspicácia, antes mesmo de receber a pelota, já tinha toda a jogada na cabeça e a executava com tremenda genialidade. 
O fato que dá a origem para a história, não é de boa lembrança para sua família. Foi no dia 11 de agosto de 2005. Às vésperas do Dia dos Pais daquele ano, soube por fontes do sistema prisional que havia um esquema especial de segurança sendo preparado para Pelé visitar seu filho, Edson Cholbi do Nascimento, o ex-goleiro Edinho, na época com 34 anos, preso na penitenciária de segurança máxima de Presidente Bernardes por envolvimento com tráfico de drogas. Na época, entre outros trabalhos, eu atuava como colaborador da Folha de S.Paulo no oeste paulista, função que exerci com orgulho por quase dez anos, com publicação de mais de 400 textos, inclusive quatro manchetes principais e várias reportagens especiais. 
Assim que soube que Pelé iria a Prudente, já comecei a me preparar psicologicamente para o encontro. E, principalmente, tentar conter a emoção e manter o profissionalismo ao ver o ídolo de perto, aquele super-herói que mexia com minha imaginação quando criança ao ouvir histórias e mais histórias contadas por meu pai, o seu Américo, fã dele e de Garrincha. 
Avisei a redação da Folha quase uma semana antes sobre a pauta. “Vamos monitorar e cobrir, queridão”, me orientou o mestre Julião, o Júlio Verrísmo, coordenador da Agência Folha, cara que admiro e me ajudou muito na Folha (o “queridão” que cito agora, como ele sempre falava esbanjando seu bom humor, foi para tirar uma onda com esse figuraça). Ansioso pelo encontro, eu monitorava todo dia. Não poderia perder essa jogada pelo juro jornalístico e por santista que sou. Com a noção básica do esquema de segurança, defini meu planejamento. Alguns taxistas do aeroporto eram minhas fontes. Sempre parava, conversava e tomava café com eles, que me alertavam sobre algumas personalidades que chegavam à cidade. Consegui muitas pautas inéditas graças a essa turma. 
Planejamento definido, data acertada, fontes sendo consultadas a cada dia, eu só não contava com um simples fato: quem eu ia “marcar”, para usar uma linguagem futebolística? Pelé... Simplesmente Pelé. O esquema de segurança do governo do Estado previa que o rei estaria no presídio na sexta-feira à tarde, dois dias antes do Dia dos Pais. Estava tudo pronto com PM e os agentes prisionais, que evitaram que ele comparecesse no domingo. Motivo simples: imaginem o tumulto na portaria da unidade que ele causaria na fila ao lado de centenas de pessoas. Nem mesmo os outros detentos poderiam saber, mas eu sabia, graças a boas fontes.
E o rei mostrou porque driblava com facilidade. Um dia antes do programado, ele foi a Bernardes. Chegou em um jato particular de um amigo. Apesar de discreto, com seus óculos escuros e um boné, foi identificado por um taxista, que me avisou. Pena que não lembro seu nome. “Pelé chegou, Pelé chegou!”, me disse eufórico ao telefone. O esquema tático das forças de segurança havia sido vencido pelo craque. Ele fez que tudo fosse antecipado. Naquele dia eu cumpria uma pauta em Rosana, a 200 km de Prudente. Como não chegaria a tempo, avisei colegas de imprensa que conseguiram ainda entrevistar o craque após a visita a Edinho. Foi a forma que encontrei para que sua visita fosse registrada pela imprensa. E, infelizmente, não por mim. Independente de um tema tão delicado, o rei provou mais uma vez a realeza. Atendeu a todos com atenção, ficou quase uma hora no saguão do aeroporto numa verdadeira sessão de autógrafos e fotos. 
Cheguei a Prudente uma hora depois da decolagem do voo de volta de sua majestade a São Paulo. Graças aos colegas, que me deram uma cópia da fita da entrevista, emplaquei o lead na Folha com o título “Pelé visita Edinho em presídio e diz crer em inocência”, como no link abaixo. Não vi Pelé pessoalmente, mas fico com a deliciosa sensação que, creio, muitos jogadores tiveram de ousar pensar que iam antecipar uma jogada e conseguir ganhar uma jogada dele. Pura ingenuidade. Parabéns, rei. E, mais uma vez, muito obrigado por ter nascido santista. 

Clique aqui e leia: Pelé visita Edinho em presídio e diz crer em inocência (na Folha)
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1208200510.htm

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