Teatro de marionetes 

Estava pensando sobre o ser humano e suas questões relativas à sua sobrevivência. Refiro-me sobre as diversidades, manejos e formatos em lidar com a dor, sofrimento, lutos, perdas, enfim, tédio do dia a dia. Algo que sempre observo, são pessoas lutando muito para serem felizes, sempre. E pego-me dizendo que ser feliz sempre é impossível. E não há magia, bruxaria ou terapêuticas eficazes para isso. O que então, podemos fazer para nos sentirmos relativamente bem? Podemos nos iludir ou fugir, alucinar, atuar, enfrentar a realidade, tolerar as frustrações, des-idealizar, ser simples e buscar ajuda em direção ao autoconhecimento. 
O ser humano é um eterno inconformado com a questão da transitoriedade. Envelhecemos e morremos é fato. E muitos, resistem e insistem, autossabotando-se com métodos relacionados à estética, onde poderão “resgatar” a juventude. A vaidade é motivadora, porém, tudo que em excesso, engessa a mente. A compulsão e obsessão levam à paralisação e involução. 
Podemos também pensar que, comprar roupas e sapatos novos, diariamente, implica em ter consciência e trabalho para pagar as dívidas. Podemos também, comer tudo que desejamos, para aliviar as angústias e o tédio. É bom pensar, que causa bem-estar momentâneo, mas poderemos ficar obesos, se houver a repetição diária ou obesidade mórbida. Existem as cirurgias de redução de estomago, como gastroplastia, balões, etc., mas também, a possibilidade de pensar. Há também as drogas lícitas e ilícitas para provocar a fuga do mal estar inerente à vida. Será preciso, consumo diário, pois, dor e angústia não saem pelo ralo. “Se você sente dor, você está vivo. Se você sente dor das outras pessoas, você é um ser humano”. (Tolstói)
É preciso simbolizar as faltas, vazios, tédio. É preciso domesticar os pensamentos selvagens, aceitar e atravessar, mergulhar, viver a tristeza. “Permanecemos ignorantes de nós mesmos, é porque o autoconhecimento é doloroso e preferimos os prazeres da ilusão (Aldous Huxley). Freud (1915) fala sobre o valor do botão de rosas que abriu e sobre o tempo de ser feliz aproveitando a sua beleza, seu cheiro exalado por ela. Esse tempo pode ser eterno. A felicidade está aí. Muitos de nós somos sedentos por realizações de desejos. A voracidade, muitas vezes, nos vampiriza, levando à concretude ou ao automatismo, num vai e vem de ausências e presenças, desenfreadas. E assim, o ter suplanta o ser. 
Em “A gênese”, do Fausto goethiano, ele diz assim sobre a felicidade: “O mais feliz dos homens é aquele que consegue ligar o fim de sua vida ao início”. Lançando um arco entre o menino fascinado por teatro de marionetes e o ancião debruçado, ainda às vésperas da morte, sobre a segunda parte da tragédia, foi a longa convivência com a história do doutor pactuário que permitiu ao poeta atingir a meta que, na sua visão, seria a mais elevada a que pode aspirar a existência individual”. 
Goethe nos deixa essa mensagem, ainda sobre a felicidade, que: “é muito importante que o adulto hoje reate com a criança interna do seu passado”. E aos 4 anos, no Natal de 1753, ganha um presente de sua avó, que coroou todas as suas bondades ao “nos apresentar um teatro de marionetes e, com isso, criar um novo mundo na velha casa”. 
 

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