Ter irmão é uma pegadinha

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 10/11/2020
Horário 06:34

Tenho dois filhos. Dois cúmplices. Dois artistas. Dois amores. Dois terroristas. Mas, sobretudo, são dois irmãos e é sobre essa parte tão enlouquecedora da vida que quero falar hoje. 
Eu acho que Deus criou uma bela pegadinha quando inventou essa história de irmãos. Caprichou nessa porque não tem coisa neste mundo que nos faça ir do 0 a 100 como uma relação entre irmãos. 
Irmãos nascem sob a marca da divisão. Dividem o mesmo teto, o tempo, a comida, brinquedos, a mesma mãe e pai. Aliás, dividimos tanto, que nada nos separa. Irmãos, quando crianças em uma condição de vida tradicional, são indestrutíveis.
Ter um irmão, mais novo ou mais velho, ou dos dois, é poder compartilhar os mesmos medos, desejos, aventuras, brigas e alegrias. Não à toa que neste momento aprendemos a amar, a admirar, a ter a certeza de que nunca mais estaremos sozinhos. É uma delícia que a vida se resuma a sermos tão cúmplices, não é?
Bem, mais ou menos. Expectativa e realidade.
A questão é que a gente cresce e o mundo nos apresenta a ele próprio. O mundo é competitivo, infinitamente maior que dentro de casa, e tem um lance que vai enlouquecer a cabeça dos irmãos: o reconhecimento de que um não é igual ao outro e aí está aberta a temporada de caça.
Irmãos são lindos, bonitos e perfeitos, mas também sabem ser do mal. Aliás, não tem ninguém que conheça melhor o seu próprio inimigo do que o irmão. Uma palavrinha bem colocada no meio de uma discussão e o seu castelo desaba em segundos. O irmão sabe como fazer doer. E que bom seria se fosse tão fácil resolver os perrengues entre irmãos do mesmo jeito que a mãe fazia: surtava e dava uns cascudos até que a paz reinasse. 
Penso que a maior complicação entre irmãos, já na fase adulta, nem é exatamente a competição entre eles, mas sim a projeção que cada um faz sobre o outro. 
Irmãos mais velhos querem que os mais novos tenham sucesso, criem bons valores e princípios. Irmãos mais novos entendem que os mais velhos devem também dar exemplos de bons valores e princípios e, ainda, devem protegê-los por toda eternidade. Irmãos projetam entre si os casamentos mais perfeitos, os empregos mais rentáveis, as melhores relações de amizade e o corpo mais saudável e bonito, livres de barrigas, calvícies e estrias.
Parece bom, né? Mas quase sempre a projeção é ruim porque é egoísta. Normalmente é um sentimento que tem uma embalagem muito bonita por fora, mas é tóxica por dentro. A gente projeta no outro o que queremos para nós mesmos. Fato! E daí que se realmente toda expectativa virar realidade, ficamos sós e as brigas começam. 
Está vendo onde rola a pegadinha? Ter a mesma mãe ou o mesmo sobrenome não nos impõe a tranquilidade de que está tudo certo. Não está e por mais triste que seja, em muitos casos, somente a morte de um deles ou o afastamento e a indiferença entre ambos é que fazem a ficha cair! 
Se você tem um irmão e não se reconhece nesta crônica, é feliz. Mas se o que eu disse aqui bateu com o que tem vivido, é hora de ficar mais esperto e escapar da pegadinha dos brothers. Reveja. Refaça projeções. Assim como o atrito é gerado por você, também está em suas mãos o recomeço, a volta para os dias em que vocês eram indestrutíveis. 
 

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