Tito

OPINIÃO - Thiago Granja Belieiro

Data 31/01/2026
Horário 05:00

Parecia mais um dia comum na vida daquele cachorro, vira-lata dos grandes, meio aparentado a um Border Collie, mas com outras ascendências difíceis de saber com certeza. Grande e peludo, branco com manchas pretas, cão inteligente, carinhoso e amigo da família, em especial, do mais novo, criança de seus 4 anos e pouco, do qual Tito não desgrudava, a não ser, é claro, para seus costumeiros passeios pela pequena cidade. Eram amigos sinceros, companheiros de toda hora e Tito exercia ainda papel de guardião severo da segurança do pequeno, a ponto de rosnar até aos conhecidos que se aproximavam, quando a criança dormia ou distraia-se em seus devaneios infantis. 
Naquele dia, porém, tudo mudara bruscamente. A mãe do menino, que odiava o cão, parecia ter outros planos para aquela amizade, de modo que chamou os dois para passearem no fusca branco da família. O menino, inocentemente, concordou, adentrou no banco de trás do fusca chamando por Tito, que resistia, sabedor da desavença da mãe do menino para com ele. Com a insistência do garoto, e sua diligência como companheiro inseparável, acabou entrando no carro, apesar da desconfiança que sentira naquele convite vindo da dona da casa. Ele sabia, como todos, que não era exatamente querido por ela, mas, considerou a companhia do menino, além do desejo que nutria em deitar no confortável banco de trás do fusca, de modo que considerou que os riscos valiam a pena. 
Saíram meio às escondidas, sem aviso prévio aos demais membros da família. Tito e o menino seguiam tranquilos, cada um no seu universo particular, tanto que não notaram quando saíram da cidade em direção à rodovia. A mãe tinha certos planos, ainda não comunicados, de maneira que o ideal seria ir para a cidade grande mais próxima, distante 30 quilômetros. Ali, na cidade pequena, seus planos não dariam certo, pois, sabidamente, Tito era grande conhecedor daquelas ruas e caminhos da pequena cidade, de maneira que ela sabia que ele prontamente retornaria para casa, mais cedo ou mais tarde, ao ser abandonado em qualquer ponto daquela cidade. 
Depois de curta viagem, de não mais de 30 minutos, em que o menino brincava e Tito dormia, confortavelmente no banco de trás do Fusca, eles chegaram a uma avenida e depois a uma rua paralela, mais tranquila. A mãe parou o carro, desceu e abriu a porta para o cachorro sair. Tito desceu, desconfiado, mas já estava cansado de estar ali, sem brincadeiras e correrias, de modo que desceu esperando que o menino também o fizesse. O garoto fez menção de sair, mas foi impedido pela mãe, que fechara bruscamente a porta do passageiro, embarcou rápido pela porta do motorista, olhando, um tanto aflita, para os lados, de modo a verificar se era vigiada por alguém. 
Arrancou rápido com o carro, que não fora desligado. O menino, agora no banco de trás, olhava pela janela o desespero do cachorro, deixado ali, sozinho, naquela cidade desconhecida. “Mãe, e o Tito, vai ficar aí?”, ele perguntou, o que a mãe respondeu: “Não filho, depois a gente vem buscar ele!”. 
 

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