Tropeços e ideias

OPINIÃO - Renato Mungo

Data 07/12/2021
Horário 05:00

Acredito que muitos leitores já tenham ouvido falar sobre São Roque de Minas, um pequeno município no sudoeste do Estado de Minas Gerais. De fato, conhecemos uma história inspiradora!
Tivemos a oportunidade de conhecê-la e entender como a sociedade civil, dotada de boa vontade, estratégia e liderança, pode agir de forma articulada e fazer a diferença, por mais inóspito o local possa parecer.
Uma dor comum à comunidade que foi retratada, inclusive, em uma obra literária “A cidade morria devagar - o romance de uma cooperativa”, escrita por André Carvalho, em parceria com o protagonista da história, João Leite (Joãozinho), e publicada pela editora Armazém de Ideias.
Ocorre que nos anos 1990, um único estabelecimento bancário foi embora da cidade em virtude da baixa capacidade econômica do local, ficando a agência mais próxima a cerca de 120 quilômetros. A cada deslocamento para utilizar o banco, a comunidade ainda acabava gastando suas parcas economias em outros municípios.
Fruto dessa dor, nasceu uma cooperativa de crédito. A solução não só visou a substituição do banco, mas passou a apoiar o empreendedorismo local. A busca por tal arranjo passou por visitas a outros países (a França, em especial) como forma de atuação.
Foi implantado um modelo do qual o próprio sistema em cooperativa fornece a qualificação e viabiliza o negócio do pequeno empreendedor local, no caso, o tipo de economia já existente: o pequeno produtor rural, com ênfase no comércio de queijo, café e seus subprodutos.
Juntos, atuaram para que o governo revisasse a lei sobre a venda de produtos a partir do leite cru; fundaram uma associação dos produtores de queijo (que envolve sete municípios vizinhos); e criaram uma marca coletiva: o Queijo da Serra da Canastra, hoje, entre os mais premiados do mundo.
A partir, fundaram a primeira escola para formação de mestres queijeiros do Brasil. E, como se não bastasse, criaram uma cooperativa educacional onde tivemos o privilégio de in loco constatar não só a existência do ensino convencional, mas também do empreendedorismo sendo ensinado a adolescentes.
A reveladora história já poderia parar por aí, mas não há limites para quem quer fazer a diferença, e hoje passaram a subsidiar também as escolas da rede pública municipal e o ensino do empreender em cooperativismo.
O resultado disso tudo é a ausência de desemprego e o sonhado aumento do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), tudo, sem financiamento público, já que é realizado pela própria sociedade. Parafraseando o refrão da música “A melhor forma”, dos “Titãs”: “As ideias estão no chão, você tropeça e acha a solução...”
 

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