A obra “Flora Brasiliensis” foi organizada e publicada ao longo de mais de 60 anos (1840-1906), envolvendo dezenas de botânicos europeus liderados por Carl Friedrich Philipp von Martius, um médico alemão que participou de uma importante expedição científica ao Brasil entre 1817 e 1820. Imagine percorrer o interior do país naquela época para coletar e descrever milhares de espécies vegetais, muitas delas então desconhecidas pela ciência? Pois lá estava o viajante estrangeiro, pisando no chão da floresta.
Cada passo era uma negociação com o invisível: raízes que se insinuavam, folhas que escondiam diversos insetos que o vigiavam. Ele observava diferenças. Media sem régua aquilo que só o olhar paciente alcançava. Linhas, traços, descrições minuciosas. Arrancava com cuidado um ramo, guardando-o como se guarda uma palavra rara, como se cada planta não fosse apenas um exemplar, mas uma presença.
Quando Martius guardava os fragmentos do mundo em caixas, não estava apenas recolhendo plantas. Ele as organizava, classificava, comparava, anotava. Era preciso olhar e ver. E ver, naquele lugar, era mais difícil do que parece. Porque tudo era excesso. Tudo era sobreposição. Tudo era ao mesmo tempo. A floresta não se oferecia — ela o envolvia. Entre uma anotação e outra, havia pausas. Pequenas suspensões. Momentos em que o alemão parecia esquecer o que tinha ido fazer ali. E apenas permanecia.
Pois é, o cientista, por um instante, cede lugar ao observador. E o observador, quase sem perceber, se aproxima do artista. E talvez por isso Martius tenha aprendido a nomear com cuidado. Não bastava dizer “árvore”, “campo”, “mata”. Era preciso encontrar palavras que não fechassem o mundo, mas que o mantivessem aberto. Palavras que sugerissem, mais do que definissem. Que apontassem, mais do que capturassem. Certamente, foi por isso, que Martius tenha recorrido a nomes gregos antigos para descrever conjuntos vegetais – Náiade, Hiléia, Hamadríade, Dríade, Oréades e Napéias. Não era fuga, não! Mas uma tentativa de dizer o que escapava. Como quem sabe que há paisagens que não cabem em categorias, apenas em aproximações.
Bem, o dia caía rápido sob a copa fechada e o pesquisador precisava partir. Ele levava tudo consigo. Atravessou o oceano, organizou esse material em volumes, constuindo uma ordem, estabelecendo as bases sólidas para a taxonomia da flora tropical brasileira. Mas alguma coisa ficou lá na floresta. Talvez aquilo que nenhuma ciência consegue fixar. Ou talvez — apenas talvez — aquilo que transforma a própria ciência em outra coisa: um modo atento de estar no mundo.