Viajar pelas palavras

António Montenegro Fiúza

«A leitura é, provavelmente, outra maneira de estar em um lugar.»
José Saramago

À medida que os nossos olhos percorrem as letras, arrumadas e perfiladas, o nosso cérebro vai juntando uma e outra, uma à outra, criando palavras, frases, significados e um universo de pensamentos e ideias; cada letra tem o seu lugar definido e estando em outro lugar, contaria um conto diferente, acrescentaria pontos e construiria novas pontes do real ao imaginário. 
A leitura leva-nos de um local para outro, da mente do leitor para a do escritor, assoberbando a humanidade e infinitude de ambos; nenhum limite geográfico ou temporal existe mais, senão a capacidade de se transportar e de levitar, entre letras e palavras, entre almas.
Neste ponto, poderíamos discorrer sobre os inúmeros benefícios da leitura, essa atividade mental assaz aprazível e enobrecedora, falar sobre o exercício cerebral que alivia o stress, sobre o enriquecimento do intelecto e sobre a criação de conhecimento e sabedoria. Mas vamos nos deter, por ora, nos aspectos que elevam a inteligência emocional – assunto tão falado, mas pouco aprofundado.
Conjuntamente com uma socialização saudável, a qual permite a otimização da relação entre o indivíduo e a comunidade na qual se insere, a leitura traz vantagens a nível da construção e enriquecimento da identidade própria, bem como a formação de uma cidadania ativa e consciente.
Se, através da leitura, a mente humana (a do leitor) embrenha-se pela alma do escritor, perscruta-a, percebe o mundo através de novos olhos; se, desse modo, aprende um novo modo de v(iv)er, é lícito concluir – e existem estudos que comprovam tais fatos – que ao conhecer a realidade alheia, nos tornemos mais empáticos, mais benevolentes e mais compreensivos.
Ler coloca-nos em contato direto com a realidade, a cultura e a identidade do escritor, saboreando-a de duas perspectivas: uma interna, daquele que nela vive e que nela se reconstrói e uma externa, a nossa. Permite uma análise tanto emotiva quanto objetiva e racional, com pré-conceitos diversos, os quais levarão, finalmente, a uma concetualização mais rigorosa da realidade. 
Num espaço em que tanto se fala sobre a irmandade dos povos, sobre os aspectos identitários comuns, é imprescindível que se debruce sobre a leitura e, implicitamente, sobre a literatura, no seu aspecto mais íntimo: a capacidade de unir seres humanos. 
O incentivo à leitura de obras literárias dos diferentes povos e culturas que povoam a lusofonia abre as portas para o desenvolvimento de uma unidade e de uma identidade cada vez mais lusófona, cada vez mais humana.
 

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