O cheiro forte do couro curtido continua impregnado no ar logo nas primeiras horas da manhã. Caminhões entram e saem lentamente do pátio industrial enquanto funcionários cruzam os corredores da fábrica em ritmo já conhecido há décadas. Ontem, porém, a rotina ganhou um intervalo raro. A Vitapelli parou. Parou para celebrar.
Entre abraços, histórias e lembranças compartilhadas nos corredores da empresa, o curtume comemorou 26 anos de atuação em Presidente Prudente carregando no currículo uma trajetória que mistura ousadia industrial, protagonismo mundial e resistência diante das crises econômicas que atravessaram o planeta nas últimas décadas.
Poucas empresas da região conseguiram alcançar números tão grandiosos.
QUANDO PRUDENTE PRODUZIA COURO PARA O MUNDO
A história começou em 1999, quando o empresário Nilson Vitale adquiriu a planta industrial que daria origem à Vitapelli. Um ano depois, em 2000, as operações começaram oficialmente.
O crescimento foi rápido. Quase vertiginoso.
Entre 2002 e 2007, a Vitapelli viveu o período mais emblemático de sua história. Por quatro vezes, tornou-se o maior exportador de couro do mundo, produzindo sozinha cerca de 18% de todo o couro brasileiro.
Naquele tempo, a fábrica parecia uma cidade.
Mais de 4 mil funcionários circulavam diariamente pela unidade. O movimento intenso transformava turnos, ruas e bairros inteiros da cidade. O couro prudentino atravessava oceanos abastecendo a indústria moveleira internacional em um momento de forte aquecimento do mercado imobiliário global.
“Todo mundo consumia muitos móveis. Nós desenvolvemos couro para estofamento e nos encaixamos naquele boom”, recorda Nilson Vitale.
A Vitapelli entrou definitivamente no mapa industrial brasileiro. Figurou entre as mil maiores empresas do país e alcançou crescimento sustentável superior a 30%. Cerca de 90% da produção passou a ser exportada.
A CRISE QUE ATRAVESSOU CONTINENTES
Mas os ventos mudaram.
A crise imobiliária americana de 2008 interrompeu o ciclo acelerado de expansão global. Depois vieram novos períodos de recuperação impulsionados pelo couro automotivo. Então o mundo voltou a desacelerar.
Pandemia. Guerras. Instabilidade econômica.
O mercado internacional retraiu. O consumo caiu. E o gigante precisou encolher para sobreviver.
Hoje, a Vitapelli opera com aproximadamente 30% de sua capacidade produtiva. Ainda assim, mantém cerca de 1.300 empregos diretos considerando também a operação da PET, número que continua colocando a empresa entre as maiores empregadoras de Presidente Prudente.
“Nós encolhemos demais esperando dias melhores”, admite Vitale.
A frase é dita sem dramatização. Quase como quem aprendeu a conviver com as oscilações do mundo industrial.
A FÁBRICA QUE SE RECUSOU A PARAR NO TEMPO
Apesar da retração, a Vitapelli não interrompeu investimentos. Pelo contrário.
Enquanto muitas indústrias reduziram modernização, o curtume decidiu continuar apostando em tecnologia e atualização industrial. Nilson Vitale garante que a empresa permanece entre as operações mais modernas do setor coureiro internacional.
“Não existe mais moderno no mundo do que nós”, afirma.
As máquinas foram atualizadas. Os processos modernizados. A estrutura foi preparada para uma eventual retomada do mercado global.
A empresa espera que o fim das guerras internacionais e um futuro processo de reconstrução econômica possam reacender a demanda mundial por couro e mobiliário.
“Pode ser que na reconstrução do mundo a gente seja agraciado”, projeta o empresário.
O FUTURO AINDA MORA AQUI
Ao completar 26 anos, a Vitapelli celebra mais do que permanência industrial. Celebra resistência.
Num país onde fábricas históricas silenciam máquinas e fecham portões, o curtume prudentino continua operando, exportando e mantendo viva uma cadeia econômica que sustenta milhares de famílias direta e indiretamente.
Talvez o maior símbolo dessa história esteja justamente naquilo que não aparece nos números.
A capacidade de continuar acreditando.
Mesmo depois das crises globais. Mesmo depois das retrações. Mesmo distante do auge dos 4 mil funcionários.
Nilson Vitale ainda fala no futuro olhando para frente. “Esperamos um dia retornar à quantidade que já trabalhamos”, resume.
E enquanto as máquinas continuam funcionando em ritmo mais lento do que no passado, a Vitapelli segue fazendo aquilo que poucas gigantes conseguem fazer depois de atravessar tantas tempestades: permanecer de pé.

Vista aérea do curtume Vitapelli, um dos maiores do Brasil