"Nada nesse mundo, vai tirar você de mim"

Persio Isaac

COLUNA - Persio Isaac

Data 01/03/2020
Horário 06:48

Numa tarde de verão nos anos 70, em Presidente Prudente, um ônibus sai da escola I.E Fernando Costa, levando alunos para um passeio na Chácara do Macuco. Guto e Cristina estavam nesse passeio. Na volta, Guto senta ao lado de Cristina, tinham apenas 12 anos. Começa uma grande história de amor. Um fio de alta-tensão desencapado, ligava seus corações inocentes e indefesos. Tanto afeto, carinho, ciúmes, encontros e desencontros, iriam marcar a vida desses dois jovens enamorados. Estavam dando seus primeiros passos nesse mundo complexo do coração.

Desconheciam a voz da razão. A vida sorria para eles. Começam a namorar. Cristina era uma menina de personalidade, ousada, destemida, estava à frente da sua época. Guto vivia na fazenda, menino bonito, sensível, companheiro, amigo dos amigos, mas que não entendia a ousadia de Cristina. Não viviam uma falsa euforia e nem a sensação de um gol anulado, estavam apaixonados.

Todo grande amor tem castigo, tem perdão, tem tristeza e alegria. Vivem num mundo de ilusão. Guto sofria com a ousadia de Cristina, eram muitos olhares masculinos olhando aquele belo corpo dentro de um minúsculo biquíni. Guto sentia muito ciúmes e dava cada beliscão no braço de Cristina que doía pra burro. Coisas da idade, coisas do coração. Teve um dia que Guto estava na casa da Cristina e de repente falou como um adulto: Cris vamos pra Igreja. Fazer o que lá? Vamos nos casar. E foram os dois para a Igreja. Se casaram sem padre, sem oração, sem festa, sem convidados, sem permissão, sem dinheiro e sem documentos.

Tinham Deus em seus corações como testemunha. Loucuras de jovens perdidamente apaixonados. Uma fantasia que o amor trouxe para eles. Um sonho abençoado por Deus. Como todo grande amor só pode ser bem grande se for triste, como disse o poeta Vinícius de Moraes, houve muitas brigas, idas e vindas, outros abraços, outros beijos mas sempre voltavam um para o outro. Pensavam que esse amor estava fadado à eternidade. Mas a vida não é precisa como a matemática. Em uma dessas brigas, Guto começa um novo namoro. Tempos depois, acaba casando. Cristina sofre como nunca sofreu na vida. Sentiu o peso do abandono. Sentiu a mão pesada do desencanto. Seu primeiro amor havia casado. O que será de minha vida?

A vida vai seguindo seu curso sem precisão. Cristina se casa e vai morar bem longe de Prudente. Guto está casado e morando em Florianópolis. Passam-se mais de 30 anos e a vida continua seu curso sem dar certeza de nada. Ninguém sabe nada. Guto se separa, Cristina também, voltam a morar em Prudente. Guto e Cristina se reencontram. Sentem que estão sentados na mesma poltrona do ônibus onde se conheceram. A vida ensinou a eles que o sofrimento é o melhor professor. Todos os caminhos que percorreram encaminharam para se encontrarem no mesmo lugar.  Estão prontos para viver e entender de vez, esse magnífico sentimento que se chama amor.

Nesse momento estão deixando a vida lhe levar, não exigem nada um do outro, não se cobram, não se culpam, apenas vivem cada dia como se fosse o último. Estão felizes. Um dia voltei de carona para minha casa com eles e conversamos sobre essa emblemática história de amor: Persio, foi meu primeiro amor, me disse Cristina. Eu, como um dos últimos românticos lhe falei: Foi? Ainda é seu primeiro grande amor. Sejam felizes, são os votos desse fã que lhe escreve. O tempo não venceu as ilusões:

"Eu sei e você sabe

Que a vida quis assim

Que nada nesse mundo

Vai tirar você de mim"...

 

 

 

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