Era uma vez em Prudente...

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 19/04/2020
Horário 06:30

Quando olhei uma foto do Cine Presidente no Face, lembrei da minha juventude. Eu sempre fui apaixonado por cinema, música e futebol. O Cine Presidente foi um símbolo do que se chamavam no Brasil na década de 60, de o "Milagre Brasileiro". Cinema de grandes proporções, mais de mil lugares. Um colosso para a época. O Pulman era no andar de cima com suas cadeiras estofadas, super confortáveis. Era um luxo. As balas de leite e de café deixaram um gosto saboroso de saudade.

Eu morava na Avenida Washington Luiz, 501, apenas um quarteirão dessa revolução arquitetônica e cultural. A tela CinemaScope impressionava pelo tamanho. Era minha janela para conhecer e ver o mundo em preto e branco ou colorido. Quando passou o filme dos Beatles, os Reis do Iê Iê Iê, fui à loucura. Entrei com a imitação do anel do baterista Ringo Starr, meu ídolo, já que eu gostava de bateria. Anel grande de cor vermelha. Ficava imitando ele tocar, balançando a cabeça, com o meu cabelo ruim, que não mexia nenhum fio. Maldita "touca". Uma frustração.

Depois a juventude inocente saía e ia dar volta na praça em frente à Catedral em volta da fonte luminosa. Não podia faltar na "Pane" aonde a maldade não existia. A família do Aldinho eram os donos.  O Arlindo era o garçom: Arlindo me dá um misto quente e depois uma primavera. Quem não se lembra? Não tinha dinheiro e nem existia cartão de crédito. Simplesmente assinava nota e meu pai acertava todo fim de mês. Por isso que a Maria Célia Macuco brinca carinhosamente dizendo que fui e ainda sou mimado. Acho que ela tem razão. Minha geração viveu dessa maneira.

Como sonhei querendo ser um Bruce Lee assistindo “Operação Dragão”. E o “Canal 100”? Lembram? A música é inesquecível. A batida do tamborim acompanhando os dribles de Garrincha, os Joãos sentados no chão, o Maracanã lotado sorrindo de felicidade com os Geraldinos com os seus sorrisos desdentados. Tempos de ouro. O Garrincha foi o Charles Chaplin do futebol. E o filme dos Sete Samurais? Com o grande ator japonês, Toshiro Mifune. Saí do cinema pronto pra morrer em nome da honra. E o filme “Tubarão”, de Steven Spielberg? Até hoje não entro no mar. Basta sentir a água salgada no calcanhar que logo escuto a música e saio gritando: Shark, Shark.

O primeiro livro que li foi “O Poderoso Chefão”. Meu querido amigo Nelito que me falou desse livro. Chorei quando assassinaram Santino Corleone, afinal me sentia parte da família. Queria ser um mafioso. Quando assisti ao filme, me identifiquei com Michel Corleone. Planejei o assassinato de um cara que dançava pra burro e todas as meninas queriam dançar com ele. Que ódio. Minha imaginação era ainda mais alimentada por essa fábrica de ilusões. Minha timidez desaparecia frente aos personagens que o incorporava. Podia ser qualquer um, desde um bandido, mocinho, galã ou um super heroi. Voltava para casa com meus sonhos a mil. Mas quando acabava a fantasia, a timidez me devorava.

Ficava no Colégio IE meio escondido só pra ver a saída do Colégio Cristo Rei, esperando ansioso ela passar de vestido azul escuro, camisa branca e meias até os joelhos. Tinha a beleza de um pôr do sol. Ah se eu fosse “O Grande Gatsby” talvez ela me quisesse. Não tinha a confiança necessária. A fábrica das ilusões era meu refúgio e seus personagens meu alter ego.

Os saraus musicais na casa da Ana Caram com seu Jamil tocando o chorinho, “Pedacinhos do céu” com seu bandolim, não dá para esquecer. O tempo passou, tive que ir embora de Prudente fazer cursinho. Queria fazer faculdade de Psicologia. O mundo não era igual à tela CinemaScop do Cine Presidente. Não tinha as balas de leite e nem de café. Não era Bruce Lee e muito menos Michel Corleone.

Tudo se transformou. Fui aprendendo com a realidade. Dancei a dança da solidão na cidade grande. Tive a felicidade num momento de desilusão de conhecer a Mulher Maravilha. Me casei. Temos duas filhas maravilhosas, a cachorra Amora e uma bateria linda. Minha timidez sossegou um pouco. Mulher Maravilha me mostrou que o que mais a encantava era minha personalidade e meu orgulho. Nunca exigiu riqueza material. Hoje, aquele menino tímido, que procurava nos personagens uma super autoestima, entendeu que ser apenas ele é o suficiente para olhar para mundo sem a tela de CinemaScop do Cine Presidente.

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