A chuva simplesmente chove

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 16/01/2022
Horário 05:00

O Brasil não cansa de ficar cada vez mais triste. Thiago de Mello, nosso “poeta da floresta”, nos deixou. Perdemos um dos maiores cronistas do Brasil e da Amazônia que ele tanto amava. Por alguns instantes fiquei olhando para a rua pela janela do meu quarto, lembrando do meu prazer com a primeira leitura de “Os Estatutos do homem" e “Madrugada camponesa”. Fica o seu grito poético contra a destruição da natureza, o grito da esperança de preservação de uma cultura viva e formadora de identidade que abraça pescadores, mateiros, lavradores, remadores, extratores, artesãos, umbilicalmente ligados ao meio em que vivem através da dedicação a atividades que garantem a sobrevivência. A crença nas pessoas simples, nas almas de coração generoso.
A chuva ficava mais forte lá fora e uma enxurrada começava a se formar do lado da calçada. Assim como nas palavras que Thiago de Mello colecionava e guardava no bolso, havia um rio que escorria dentro de mim.
Quando criança, eu adorava brincar na chuva ou esperar ela amansar para criar competições relâmpagos entre pequenos objetos lançados nas enxurradas até se perderem das vistas. Em dias mais sofisticados fazíamos barquinhos de papel (transformados numa frota de navios em mar agitado), mas valia também tampinhas, pequenos gravetos, folhas secas. Depois vieram os anos escolares e meu reencontro com as águas em diversos aprendizados acerca do processo de evaporação, transpiração das plantas, os tipos de chuva. 
Olhei para uma gota da chuva que respingou e escorreu lentamente pelo vidro da janela. “De onde você veio?”, perguntei para ela. "Você estava lá naquela nuvem mais escura? Veio da superfície atlântica ou se desprendeu de alguma geleira longínqua?”, insisti em vão antes que ela se dissolvesse na pingadeira da janela. É o império das águas, diria o poeta. "Água que corre no furor da correnteza, água que leva, água que lava, água que arranca, água que oferta cantando, água que despenca em cachoeira, água que roda no rebojo, água que vai” (Thiago de Mello). Afinal, a chuva não sabe de nada. A chuva simplesmente chove. Ela não é a responsável pelo rastro de milhares de desalojados. Tragédias que se repetem seguidas por manchetes acerca do excesso do volume das águas. Ninguém se pergunta porque as pessoas precisam ficar bem ali? Ou quais seriam as melhores alternativas para as moradias brasileiras? "Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converte-se em manhãs de domingo…” (Thiago de Mello).
 

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